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Aos 41 anos, Cristiano Ronaldo voltou a marcar três golos num só jogo, chegou aos 985 na carreira e aproximou-se de uma marca que parecia impossível. Mas, entre a consagração no BOAT, a polémica com a Seleção e as primeiras conversas sobre a reforma, há uma pergunta que começa a ganhar força: o que acontece quando o número que persegue deixar de ser um objetivo?
Há jogadores que passam uma carreira inteira à procura de um lugar na história. Cristiano Ronaldo parece ter passado os últimos anos a tentar descobrir até onde consegue esticar a sua própria. Aos 41 anos, quando a palavra reforma já entrou no seu discurso e o futuro começa inevitavelmente a ser discutido, o avançado português continua a fazer aquilo que melhor sabe: marcar golos. E não parece particularmente interessado em abrandar.
Na quinta-feira, frente ao Al Kholood, Ronaldo voltou a lembrar que a idade não apagou o instinto goleador. O hat-trick na vitória do Al Nassr por 5-3, com três golos apontados entre os 66 e os 81 minutos, elevou a contagem para 985 golos oficiais na carreira. Faltam 15. Quinze golos para chegar aos 1000, um número redondo, histórico e que, durante muito tempo, pareceu pertencer mais à ficção do que à realidade do futebol.
A noite não começou, sequer, da melhor maneira. Ronaldo viu dois golos anulados por fora de jogo, mas acabou por assumir o protagonismo quando a equipa mais precisava. Com o resultado empatado a dois golos, apareceu três vezes em 15 minutos e resolveu o encontro. João Félix, com quatro assistências, foi um dos grandes protagonistas da vitória, participando diretamente em dois dos golos do compatriota.
Foi o 67.º hat-trick da carreira de Ronaldo e o primeiro desde maio de 2024. Mais do que uma exibição individual, foi uma demonstração de que o avançado continua a encontrar formas de ser decisivo, mesmo numa fase em que cada época é inevitavelmente acompanhada pela pergunta sobre quanto tempo mais vai continuar.
Os 1000 golos são, neste momento, o grande horizonte de Cristiano Ronaldo. Aos 985, está a apenas 15 de uma marca que o colocaria num patamar estatístico praticamente sem paralelo no futebol moderno. Mas a dimensão do feito não está apenas no número. Está também no percurso que o tornou possível: Manchester United, Real Madrid, Juventus, Al Nassr e Seleção Nacional, uma carreira construída em diferentes campeonatos, contextos e gerações.
Em 2026, Ronaldo somava 27 golos em 42 jogos, de acordo com os dados divulgados após o encontro com o Al Kholood. A média, próxima de 0,64 golos por partida, mostra que a marca está ao alcance, mas também que não será necessariamente imediata. Para chegar aos 1000 ainda este ano, terá de acelerar o ritmo, sobretudo tendo em conta o calendário de jogos que resta ao Al Nassr.
A possibilidade existe. A garantia, não. E talvez seja essa incerteza que torna esta perseguição tão interessante. Ronaldo não está apenas a tentar acrescentar mais um recorde a uma coleção que parece não ter fim. Está a tentar chegar a uma fronteira que pode representar um dos últimos grandes objetivos de uma carreira que já ultrapassou há muito aquilo que se esperava de um jogador profissional.
A coincidência é particularmente simbólica. Poucos dias antes do hat-trick, Ronaldo tinha sido distinguido com o BOAT (Best of All Time), iniciativa da France Football que elegeu a melhor época de sempre de um vencedor da Bola de Ouro. A escolha recaiu sobre a temporada de 2007/08, quando, ao serviço do Manchester United, marcou 42 golos, conquistou a Premier League e a Liga dos Campeões e ganhou a primeira das cinco Bolas de Ouro da carreira.
Não se trata de uma sexta Bola de Ouro nem de um Super Ballon d'Or. É uma distinção honorífica, resultante de uma votação dos adeptos. Ainda assim, tem um significado simbólico: quase duas décadas depois, uma das temporadas que definiram a ascensão de Ronaldo continua a ser celebrada.
Em 2008, era o jovem que conquistava o futebol europeu. Em 2026, é o veterano que continua a desafiar os limites da longevidade desportiva. O passado voltou a reconhecê-lo precisamente quando o presente se aproxima de um dos números mais ambiciosos da história do futebol.
Mas há outra diferença entre as duas versões de Cristiano Ronaldo. A de agora já fala sobre o que vem depois.
Em agosto, numa entrevista à Vogue, o internacional português admitiu que a época 2026/27 poderá ser a última da carreira. Falou da vontade de deixar um legado «espetacular» e da mudança que a reforma representará na sua vida. Não anunciou uma data para pendurar as botas, nem fechou definitivamente a porta à continuidade. Mas a possibilidade deixou de ser apenas uma especulação exterior: entrou nas próprias palavras do jogador.
Mais recentemente, ao abordar a hipótese de jogos de despedida, Ronaldo voltou a colocar a tónica no presente. Quer competir e ganhar. A homenagem poderá chegar mais tarde. Por enquanto, há golos para marcar.
Se no Al Nassr os números falam por si, em Portugal o contexto é bem mais complexo. A saída de Ronaldo do estágio da Seleção, no final de setembro, abriu uma das polémicas mais delicadas dos últimos anos em torno do capitão.
O episódio teve origem na sua não utilização frente à Noruega, depois de ter aquecido durante parte da segunda metade. Ronaldo considerou que Jorge Jesus não respeitou o entendimento que ambos tinham estabelecido sobre a gestão da sua utilização. O avançado abandonou o estágio antes do encontro seguinte, frente à Dinamarca, e tornou pública a sua versão dos acontecimentos.
A Federação Portuguesa de Futebol abriu um processo disciplinar, que resultou numa suspensão de 30 dias e numa multa de 255 euros. Ronaldo também pediu desculpa aos adeptos pela situação, sem deixar de manifestar a sua insatisfação com o selecionador.
Portugal, entretanto, venceu os compromissos seguintes sem o capitão, com Gonçalo Ramos a aproveitar as oportunidades e a marcar três golos. Um dado que acrescenta outra dimensão à discussão: pela primeira vez em muito tempo, a questão da dependência desportiva da Seleção em relação a Ronaldo está também a ser colocada à luz dos resultados obtidos sem ele.
Ainda assim, a porta não está fechada. O nome de Cristiano Ronaldo consta da pré-convocatória para os encontros de novembro, frente à Dinamarca e ao País de Gales. A informação foi confirmada à Lusa por uma fonte próxima do processo e divulgada pela RTP. A convocatória definitiva deverá ser conhecida a 6 de novembro. Portugal recebe a Dinamarca a 14 de novembro, em Braga, e desloca-se a Cardiff para defrontar o País de Gales, a 17.
A inclusão na pré-lista é um sinal de que o regresso está a ser equacionado, mas não significa que a reconciliação esteja concluída, nem garante a presença na lista final. E mesmo que regresse, ficará por perceber qual será o papel que Jorge Jesus reserva ao capitão.
É um capítulo particularmente importante nesta fase da carreira. Ronaldo está a aproximar-se de um marco individual histórico, mas continua a ter de responder a questões coletivas: o seu lugar na Seleção, a relação com o treinador e a forma como Portugal pretende gerir a transição para o futuro.
A pergunta parece simples, mas talvez seja a mais difícil de responder. O milésimo golo será uma conquista extraordinária, um número que ficará associado para sempre ao nome de Cristiano Ronaldo. Mas não será necessariamente o ponto final. Se há algo que a carreira do português demonstrou é que cada recorde ultrapassado pode transformar-se no ponto de partida para outro objetivo.
Resta perceber se, depois dos 1000, continuará a existir uma marca a perseguir ou se, pela primeira vez, Ronaldo permitirá que a história fale mais alto do que a contagem.
Aos 41 anos, tem a época 2026/27 pela frente, uma eventual última participação na Seleção e um futuro que já começou a ser discutido. O Mundial de 2026 não terminou com a conquista do troféu que lhe falta, mas a carreira ainda não chegou ao fim.
O hat-trick frente ao Al Kholood mostrou que continua a haver golos. O BOAT recordou o jogador que foi. A polémica com Portugal expôs os desafios do jogador que é hoje. E as declarações sobre a reforma deixaram uma questão inevitável no ar.
Faltam 15 golos para os 1000. Mas, para Cristiano Ronaldo, talvez o maior desafio já não seja chegar lá. É descobrir o que fazer quando, finalmente, não tiver mais nada a provar em frente à baliza.
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