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Por décadas, chegar à Fórmula 1 significou subir degrau por degrau. O piloto começava nas categorias de base, ganhava experiência, acumulava resultados e, principalmente, aprendia a lidar com carros cada vez mais rápidos até estar pronto para encarar o maior desafio do automobilismo. Kimi Antonelli, porém, mostrou que nem sempre é preciso percorrer todos os caminhos para chegar ao topo.
O italiano fez sua estreia nos monopostos aos 15 anos e rapidamente chamou atenção. Em 2022, conquistou os campeonatos italiano e alemão de Fórmula 4 e, no ano seguinte, venceu tanto a Fórmula Regional Europeia quanto a do Oriente Médio. O próximo passo que parecia natural seria a Fórmula 3, mas a Mercedes decidiu fazer algo diferente: colocou o jovem diretamente na Fórmula 2.
A decisão não foi apenas uma aposta em um adolescente considerado talentoso. Foi também uma maneira de acelerar um processo que normalmente leva anos. Em vez de passar pela F3 antes de enfrentar a F2, Antonelli foi colocado diretamente em um carro mais potente e mais próximo da realidade que encontraria na Fórmula 1.
A imagem de uma escada entre F4, Fórmula Regional, F3, F2 e F1 não surgiu por acaso. A própria FIA estruturou suas categorias de monopostos como uma pirâmide, com a Fórmula Regional posicionada entre a F4 e a F3, seguida pela F2 e, no topo, pela Fórmula 1. A ideia é oferecer uma progressão técnica para que os pilotos aumentem gradualmente o nível de exigência.
Existe ainda outro mecanismo para controlar quem está pronto para chegar à F1: a Superlicença. Para disputar a categoria, o piloto precisa cumprir uma série de requisitos, entre eles alcançar pelo menos 40 pontos no sistema da FIA, que distribui pontuação de acordo com o campeonato e o resultado obtido. A F2, por exemplo, oferece 40 pontos aos três primeiros colocados, enquanto a F3 concede 30 ao campeão.
Na prática, portanto, a FIA criou uma forma de medir se um piloto acumulou experiência e resultados suficientes. Mas não determinou que todos precisem seguir exatamente a mesma rota. E foi justamente nesse espaço que a Mercedes encontrou uma oportunidade com Antonelli.
A ideia de encurtar o caminho até a F1 não começou com Antonelli. Max Verstappen é o exemplo mais emblemático de que um talento excepcional pode acelerar etapas e chegar ao grid antes do que o sistema tradicional sugeriria.
Em 2015, o holandês estreou na Fórmula 1 aos 17 anos depois de apenas uma temporada completa nos monopostos, disputada na Fórmula 3 Europeia. Curiosamente, quando o atual sistema de pontos da Superlicença foi criado, a própria Fórmula 1 destacou que Verstappen teria ficado inelegível caso as regras já fossem aplicadas naquele momento.
Antonelli, entretanto, levou a ideia a outro nível. Ele não chegou à F1 apenas com pouca experiência: passou diretamente da Fórmula Regional para a F2, pulando completamente a Fórmula 3. Foi uma decisão incomum, até mesmo dentro de um ambiente acostumado a apostar em jovens talentos.
A diferença é que Antonelli não chegou à F2 sem preparação. Enquanto avançava pelas categorias de base, o italiano já fazia parte do programa de jovens pilotos da Mercedes, que o acompanhava desde 2018, quando ainda estava no kart. A equipe também montou um programa específico de testes com carros de F1 para acelerar sua adaptação ao equipamento.
Esse ponto ajuda a explicar por que o salto não foi simplesmente uma tentativa de colocar um adolescente em um carro mais rápido. A Mercedes tinha dados, testes e anos de acompanhamento para avaliar o desenvolvimento de Antonelli antes de tomar a decisão. O caminho convencional foi substituído por uma preparação mais individualizada.
É aí que a história começa a ficar maior do que o próprio piloto. Se uma equipe consegue reproduzir em testes, simuladores, treinamento físico e acompanhamento técnico parte da experiência que um piloto normalmente acumularia em uma categoria intermediária, até que ponto é necessário seguir a escada tradicional?
A ascensão de Antonelli não significa que a Fórmula 3 tenha se tornado inútil. Pelo contrário: para a maioria dos pilotos, passar pela categoria continua sendo uma etapa importante de desenvolvimento e uma das principais formas de chegar à F2 com experiência suficiente.
Casos importantes, inclusive, são os quatro pilotos do atual grid da Fórmula 1. Charles Leclerc e George Russell venceram a antiga GP3 Series, que é equivalente a F3, e, na sequência, voltaram a conquistar títulos na F2. Anos depois, Oscar Piastri repetiu o feito nos anos de 2020 e 2021.
Para alegria dos fãs no Brasil, Gabriel Bortoleto fecha essa lista com títulos consecutivos na F3 e na F2. O brasileiro pode ser acompanhado ainda por Rafa Câmara, caso o novato da Haas confirme a liderança da Fórmula 2 até o fim da atual temporada.