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O Real Madrid, treinado por José Mourinho, reagiu esta quarta-feira publicamente à polémica que se instalou na China, na sequência de um comentário de Kylian Mbappé a um meme das redes sociais que envolve um antigo ditador daquele país.
Através de um comunicado, o Real Madrid expressa um pedido de desculpa ao povo chinês "pelo mal-estar" que este caso possa ter suscitado, juntando-se às desculpas já endereçadas pelo avançado francês, sublinhando ainda o "profundo respeito" que o clube sente por aquele país.
"O Real Madrid C. F. deseja expressar as suas desculpas ao povo chinês pelo mal-estar que possam ter provocado as recentes palavras do nosso jogador Kylian Mbappé. O nosso clube mantém um profundo respeito pela China, a sua história, a sua cultura e os seus cidadãos, bem como pelos milhões de adeptos chineses que sentem carinho e admiração pelo Real Madrid. O clube junta-se às desculpas públicas expressadas por Kylian Mbappé, nas quais o próprio jogador manifestou o seu arrependimento pelas suas palavras e reiterou o seu respeito para com o povo chinês. O Real Madrid reafirma o seu compromisso com os valores de respeito, convivência e entendimento entre culturas, e expressa o seu desejo de continuar a fortalecer os laços de amizade e afeto que o unem à China e aos seus cidadãos", pode ler-se.
A televisão estatal chinesa confirmou esta quarta-feira a suspensão das transmissões da Liga espanhola e rejeitou as explicações do Real Madrid, treinado por José Mourinho, sobre as declarações de Kylian Mbappé.
Pequim considera que os comentários do avançado francês ultrapassaram os limites e mantém a exigência de um pedido de desculpas que considere satisfatório. A controvérsia já levou empresas chinesas a romper acordos comerciais com o jogador e obrigou a LaLiga a intervir para tentar ultrapassar o conflito.
Um porta-voz do Centro de Desporto e Juventude do Grupo de Media da China (CMG) afirmou que a estação não aceita a posição atribuída ao Real Madrid, segundo a qual Mbappé não teve intenção de ofender ninguém e tem direito a expressar as suas opiniões.
O organismo confirmou que, a 26 de outubro, suspendeu as transmissões da Liga espanhola, os conteúdos relacionados com os jogos do futebolista e os anúncios publicitários protagonizados pelo avançado. A decisão tinha sido anunciada na segunda-feira e mantém-se em vigor.
A posição da emissora é clara: enquanto o clube espanhol não apresentar um pedido de desculpas considerado adequado, não haverá margem para novas conversações. "Não há nada a discutir", declarou o representante do CMG.
O conflito começou após a divulgação de uma entrevista em que Mbappé foi questionado sobre o meme da Internet que mais o fazia rir. O jogador referiu uma montagem que sobrepunha o seu rosto ao de Mao Tsé-Tung, fundador da República Popular da China.
Sem identificar Mao pelo nome, o internacional francês descreveu a figura como "um tipo que penso ser um ditador chinês" e acrescentou que costumava partilhar a imagem com os amigos.
A reação também chegou ao universo digital chinês. A Dongqiudi, plataforma de notícias e comunidade dedicada ao futebol, anunciou que não iria traduzir a entrevista, justificando a decisão com o entendimento de que as palavras do jogador feriam os sentimentos dos adeptos e do povo chinês.
As consequências da controvérsia estenderam-se ao plano comercial. O grupo de bebidas Dongpeng e a empresa de lacticínios Mengniu anunciaram o fim das parcerias que mantinham com Mbappé.
A pressão aumentou também sobre as entidades ligadas ao futebol espanhol. Na terça-feira, Javier Tebas, presidente da LaLiga, enviou uma carta ao CMG na qual condenou o comportamento do avançado, classificando-o como "inaceitável", e pediu desculpa pela ofensa causada.
A resposta da emissora chinesa foi mais exigente: além da LaLiga, também o Real Madrid e o próprio Mbappé deveriam apresentar desculpas públicas e enviar uma declaração formal por escrito.
Perante a escalada da polémica, Mbappé divulgou um comunicado em francês, chinês e inglês, no qual lamentou as declarações e manifestou "profundo respeito" pelo povo chinês e pela sua história.
"O meu comentário foi irrefletido e compreendo agora que magoou muitas pessoas na China e nas comunidades chinesas em todo o mundo", afirmou o jogador.
A iniciativa surgiu num momento em que a suspensão das transmissões e a quebra de acordos comerciais ameaçam as relações entre o futebol espanhol e parceiros chineses.
Ainda na terça-feira, Javier Tebas reuniu-se com Yao Jing, embaixador da China em Espanha, numa tentativa de encontrar uma saída para o diferendo.
A disputa tem implicações que vão além do caso individual de Mbappé. A LaLiga mantém acordos de cooperação com entidades chinesas, incluindo uma parceria estratégica com a liga profissional do país, válida até 2029.
Entretanto, o jornal oficial Global Times, ligado ao Diário do Povo, órgão oficial do Partido Comunista Chinês, aproveitou o episódio para deixar um aviso às celebridades estrangeiras com interesses comerciais na China.
"Respeitar não é opcional. Ninguém pode lucrar com a China enquanto a desrespeita", escreveu o jornal num editorial que apresenta a polémica como um alerta para outras figuras públicas internacionais.
A publicação defendeu igualmente que os contratos comerciais com celebridades passem a incluir cláusulas mais claras sobre a sua conduta pública. O Global Times não identificou especificamente as declarações que motivaram a contestação, limitando-se a referir que muitos cidadãos chineses as consideram ofensivas e preferem não as repetir.