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Leonardo Fioravanti, surfista italiano de 28 anos, pode fazer história nos 50 anos do Circuito Mundial de Surf se conquistar o título de campeão. Luta contra a história. E contra um tridente brasileiro de antigos campeões e atual campeão do mundo. A tempestade brasileira tem varrido a sala de troféus do CT desde 2014. Leo tem casa na Ericeira, adora Portugal e fala cinco línguas, português incluído. Tem como ídolos Kelly Slater e Valentino Rossi. Não seria o que é sem ajuda da “Mamma”. Falou com o 24noticias antes da apresentação de um filme onde é um dos atores principais.
Após nove anos a competir no circuito de elite mundial de surf, Leonardo Fioravanti venceu uma etapa no Championship Tour (CT). Aconteceu em junho passado no Surf City El Salvador Pro, em El Salvador, quinta etapa do calendário do World Tour.
O feito transformou-o no primeiro surfista italiano a vencer uma prova do circuito principal da World Surf League (Liga Mundial de Surf).
A vitória em El Salvador e o segundo lugar em Saquarema, Rio de Janeiro, no Brasil, na paragem seguinte, catapultaram-no para o primeiro lugar do ranking mundial. Usaria a licra amarela no Taiti.
Chegaria na vice-liderança ao MEO Rip Curl Pro Portugal, 10.ª etapa do CT, em Peniche. Em Supertubos, porém, “Leo” seria, surpreendentemente, afastado na ronda inaugural por Morgan Cibilic. A eliminação precoce fê-lo cair quatro posições, para 6.º da hierarquia, quando faltam duas etapas, Cloud 9, nas Filipinas, de 31 de outubro a 10 de novembro, e Pipe Masters, em Pipeline, no Havai, de 8 a 20 de dezembro.
À frente do italiano Leo Fioravanti (42,515 pontos) está uma forte concorrência pintada de verde e amarelo e o norte-americano Griffin Colapinto (43,695 pontos), atual número 3, depois do triunfo em Supertubos, única etapa europeia do CT.
O top 5 é liderado por Yago Dora, campeão do mundo em título e líder do ranking do circuito de elite da WSL (48,865 pontos), Italo Ferreira (46,015 pontos), ex-campeão mundial, Gabriel Medina (43,210 pontos), tricampeão, e Miguel Pupo (42,770 pontos).
Rodeado pela tempestade brasileira (Brazilian Storm) — oito títulos conquistados por surfistas brasileiros desde 2014, Gabriel Medina (3), Adriano Sousa (1), Italo Ferreira (1), Filipe Toledo (2) e Yago Dora (1) —, Leonardo Fioravanti alimenta, ainda assim, um sonho inédito que está por cumprir nos 50 anos de Circuito Mundial de surf.
“Ser o primeiro europeu, o primeiro italiano, a ganhar o título mundial seria incrível”, disse ao 24notícias antes do arranque da prova em Peniche.
“Não vou deixar de dar luta”, garantiu. “A experiência é muito importante”, assume ainda. “Não me sinto diferente, estou aqui porque aprendi que o meu lugar é aqui”, sublinhou.
Os anos entre a elite permite-lhe encarar, com naturalidade, a luta pelo título mundial. “Não é surpresa para mim”, confessa o surfista natural de Roma. “É acreditar que posso fazer isso, sinto-me numa boa posição”, reforçou, confiante.
“Sinto que é muito do trabalho que tenho feito nos últimos anos. Toda a experiência que ganhei este ano, tudo se conectou”, acrescentou Fioravanti. “Vou dar o meu melhor. Aconteça o que acontecer, estou aqui por uma razão”, reiterou.
A conversa com o 24notícias decorreu antes da apresentação de “ONE MORE”, filme da Red Bull Surf que juntou, no Boardriders Ericeira, Jack Robinson e Kanoa Igarashi, surfistas de elite e amigos de longa data.
“Temos uma relação muito especial, porque conhecemo-nos desde os 11 anos, na Quicksilver, quando o Steven Bell era o gerente mundial da equipa”, reviveu.
“Viajávamos pelo mundo juntos, em eventos. Temos essa amizade desde jovens”, recuperou, ao falar deste bálsamo que constitui a viagem à Indonésia, um desejo antigo dos três amigos maturado “há três ou quatro anos”.
Natural de Lazio, perto de Roma, Leo Fioravanti abandonou o território transalpino na precocidade da vida. Completara dois dígitos de idade (dez anos). Destino? França.
“Foi um grande mudança para um miúdo”, reconhece, mas uma deslocação desejada. “Adoro surfar, tanto que nunca senti ter sido uma decisão difícil”, acrescentou.
A progenitora foi a peça-chave nas escolhas pessoais e profissionais. “Fui muito afortunado, a minha mãe deixou a vida em Itália e percebeu que a paixão por este desporto para mim era especial”, adiantou. “Decidiu viajar comigo, estar ao meu lado até aos meus 18 anos. Foi muito importante, porque sem ela não teria sido capaz”, sorriu. “Estou muito feliz por ter uma mãe como a Serena”, avançou.
Poliglota, o vocábulo de Leo Fioravanti exprime-se em cinco línguas. O italiano nativo, inglês, espanhol, francês e português. Uma bandeira multilinguística útil num circuito mundial de passagem por nove países onde se fala meia dúzia de idiomas.
A língua gaulesa vem da infância passada (e residência) em França. O português, da convivência com a quota brasileira no Tour e uma relação antiga com Portugal, nação com o qual mantém “uma ótima ligação”.
A conexão ao retângulo luso cimenta-se em raízes imobiliárias. “Tenho casa na Ericeira, onde venho desde os oito ou nove anos”, refere. “Amo a Ericeira. Tive a sorte de ganhar uma etapa do Challenger Series (circuito de qualificação da WSL) em Ribeira D’Ilhas, em 2022, um momento muito especial para minha carreira (requalificou-se para o CT). Foi especial ganhar um evento na Europa”, confidenciou, em inglês.
“Amo Portugal, a comida, as pessoas, as ondas. Fico feliz de passar tempo aqui”, asseverou o surfista que já foi treinado por Adriano Souza (brasileiro, campeão do mundo, selecionador italiano e treinador de Medina) e segue os treinos de Rich Marsh, australiano que acompanha o português Frederico Morais.
A memória de Fioravanti viaja até 2013. Recebeu o primeiro bilhete para uma bateria no CT. Defrontou Mick Fanning, no Quiksilver Pro France, em França. O australiano viria, nesse ano, a sagrar-se tricampeão mundial de surf.
“Tinha 15 anos, tinha ganhado campeonatos jovens (campeão mundial ISA sub-18 e campeão pro-júnior europeu), houve uma desistência e recebi wildcard”, relembrou.
Guarda uma imagem nítida. “A minha primeira onda no World Tour foi um 8,6 pontos. Recordar-me-ei desse momento para sempre”, disse.
Uma grave lesão em 2015, aos 17 anos, podia ter interrompido este filme de la vita è bella, numa altura em que já tinha “alcançado resultados importantes no surf”.
No arranque do Qualifying Series (na altura a via de acesso à elite), em Pipeline, no Havai, sofreu uma queda violenta e fraturou duas vértebras. Cirurgias, parafusos e um processo de reaprendizagem a andar não o impediram de vencer oito meses depois o título sub-18 da International Surfing Association (ISA), um feito inédito para seu país.
“Quando temos 17 anos sentimo-nos invencíveis”, refere. “Foi um choque, mas, ao mesmo tempo, uma curva e uma experiência de aprendizagem incrível”, recordou.
“A principal coisa que aprendi: nada é fácil na vida de um atleta profissional, temos de trabalhar duro e dedicarmo-nos ao que queremos alcançar”, frisou.
Estreou-se como membro permanente do CT em 2007, terminou no top 10 em duas ocasiões, 2023 e 2025, e soma duas presenças olímpicas (Tóquio2020 e Paris2024).
Aos 28 anos de idade, na flor da maturidade desportiva, não esconde admiração por dois heróis. “O Kelly Slater sempre será a nossa maior lenda, um herói e uma inspiração”, apontou. “Ninguém chegará perto do que Kelly fez na carreira”, assinalou, em jeito de vénia ao 11 vezes campeão mundial.
Outro herói tem sangue transalpino: o motociclista Valentino Rossi. “Por isso, escolhi o número 46 na licra”, explica.
Introduz o tema Itália. Para lá do futebol, que “não vive os melhores dias”, gracejou, Leonardo Fioravanti assinala o “bom momento” do desporto italiano, de que o tenista Jannik Sinner é a expressão máxima. “Estou orgulhoso em ser italiano e espero inspirar atletas italianos no surf e noutros desportos”, anunciou.
Sem especular o futuro próximo, continuar a surfar está na mente de Leonardo Fioravanti. “Tenho 28 anos. Sinto-me no pico da minha carreira. Os meus resultados mostram que a minha motivação está no ponto mais alto, logo não vejo nenhum motivo para parar em breve”, assegurou, quando questionado sobre a longevidade.
“Sinto-me ótimo com o que estou a fazer, amo a minha vida, consigo viajar com a minha esposa, tenho uma família maravilhosa em casa, é um momento especial, sinto-me muito bem e agradecido pela vida que estou a viver”, pormenorizou.
Regressa à conversa sobre a competição. A WSL tem mudado o formato competitivo nos últimos anos. Finais, cut (corte de meio de temporada) e um post season cut (corte de pós temporada), em Supertubos e Filipinas, antes da final, no Havai, em Pipelline.
“Nos últimos cinco anos foi difícil como surfista. Houve tantas mudanças. Ninguém gostou do cut. As finais (WSL Finals) foram um dia emocionante para assistir, mas acho que o campeonato deve ser decidido durante o ano, e não apenas num dia”, opinou.
“Hoje estamos de volta ao que era. Começa na Austrália e acaba no Havai”, aponta.
Leo foi um dos 22 atletas a integrar as duas etapas após a época regular. “Não acho que faça muito sentido, e para ser honesto, não sei por quanto tempo vai ficar”, antecipou, ao referir-se à introdução das duas etapas pós temporada.
Considera que a “WSL está a fazer um ótimo trabalho” e espera que haja um recuo nesta alteração.
Para fim de conversa, um tema delicado extra competição. O alegado abuso sexual do mexicano Alan Cleland Jr. e o respetivo afastamento de todas as competições WSL e da seleção mexicana entrou como maré agitada na família do surf mundial.
Fioravanti aborda-o com cautela. “Até este ponto, não sabemos os detalhes exatos. Respeitar uma mulher é uma prioridade que a minha família, os meus pais, me ensinaram desde o primeiro dia”, mencionou.
“Qualquer coisa que tenha a ver com desrespeitar uma mulher ou abuso sexual é absolutamente assustador. Mas, como disse, não sabemos os detalhes exatos. Do que ouvimos, e se algo disso é verdade, é, repito, obviamente assustador”, rematou.