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Fica, desde já, este disclaimer: não escrevo este texto para comparar treinadores, nem para atacar quem decidiu. Escrevo-o porque sinto que alguém tem de dizer em voz alta aquilo que tão pouca gente disse enquanto ele cá esteve: obrigado, mister!
Obrigado pelos 99 jogos, pelo (bi)campeonato, pela Taça de Portugal e pelos QF da Champions League. Obrigado pela calma trazida para um clube que raramente a tem. E obrigado por nunca ter escondido um mau resultado atrás de um árbitro, lesões, erros individuais ou de qualquer outra desculpa esfarrapada. Obrigado por tudo isto, pois infelizmente, serão muitos os adeptos que apenas guardarão de si estas últimas memórias mais negativas e farão de todo o seu percurso também ele negativo, constantemente adicionando um “mas” sempre que alguém referir o que conseguiu de positivo.
Convém, por isso, lembrar de como estava o Sporting a 26 de dezembro de 2024. João Pereira tinha perdido quatro jogos seguidos — Arsenal, Santa Clara, Moreirense e Club Brugge — algo que nunca tinha acontecido a um treinador do Sporting nos primeiros cinco jogos. No campeonato, deixou fugir 8 dos 12 pontos que disputou. A equipa que Rúben Amorim deixara a ganhar tudo estava de rastos, taticamente, tecnicamente, fisicamente e, acima de tudo, mentalmente.
Rui Borges chegou, estreou-se três dias depois a ganhar ao Benfica (1-0) e, duas semanas mais tarde, já estava a disputar uma final da Taça da Liga, perdida nos penalties. Teve que perceber que as suas ideias não serviam aquele grupo naquele momento e, ao fim de sete jogos, voltou ao sistema que os jogadores conheciam. Não é sinal de fraqueza, bem pelo contrário. É inteligência, capacidade de ajustar e, sim, a tal humildade que, agora, quase parece um defeito do treinador da maneira que muitos falam do mesmo.
O resto é história: 19 jogos de campeonato, 13 vitórias, 6 empates, zero derrotas. Época terminada invicto nas competições nacionais. O primeiro bicampeonato do Sporting em 71 anos. E, no Jamor, uma reviravolta épica frente ao Benfica (3-1, após prolongamento) que deu ao clube a primeira dobradinha em 23 anos. No fim, os treinadores e capitães da Liga elegeram-no o melhor treinador da época. Nada mau para quem “não tinha estatuto” para o Sporting.
No verão de 2025, o Sporting vendeu Gyökeres ao Arsenal por 65,8 milhões de euros fixos, a maior venda da história do clube. O homem que “carregava” a equipa de Amorim, segundo muitos adeptos, tinha partido. Muitos davam o Sporting de Rui Borges como acabado antes de começar.
O que aconteceu foi o contrário. Com Luis Suárez no lugar do sueco (33 golos na época), a equipa chegou ao fim de 2025 a marcar 2,54 golos por jogo, contra 1,97 na época anterior sob o seu comando. Bateu o recorde de jogos seguidos sem perder fora no campeonato, que pertencia a Scopelli desde 1956. E tudo isto com um boletim clínico surreal: em Janeiro, só quatro jogadores do plantel ainda não tinham falhado um único jogo por lesão. Já na primeira época, Borges tinha montado 9 vezes um meio-campo com Debast adaptado, às vezes ao lado de um miúdo de 18 anos, Eduardo Felicíssimo. Nunca o ouvi queixar-se.
Na Europa, fez história:
No campeonato, fez 82 pontos, exatamente os mesmos da época do título. Desta vez não chegou, porque o FC Porto fez 88. Na Taça, eliminou o próprio FC Porto pelo caminho e chegou ao Jamor, onde perdeu com o Torreense (1-2, após prolongamento), apesar de 72% de posse de bola. Doeu, claro. Ainda dói. Mas convenhamos: também o Sporting do idolatrado e adorado Amorim caiu na Taça com o Varzim, do terceiro escalão, e nem sequer passou da primeira eliminatória. A diferença é que a Amorim perdoou-se, renovou-se e continuou-se a dar-lhe oportunidades mês após mês, época após época. A Borges, bastou um início inconsistente e já não há quem aguente.
Em Maio de 2026, o Sporting renovou com Borges até 2028. Em Julho, o próprio presidente admitia que se tinha fechado um ciclo. Saíram Hjulmand, Trincão, Morita, Pote, Quenda e Diomande, num verão de vendas acima dos 132 milhões de euros. Na prática, Borges começou do zero, com um plantel novo e um mercado que, sejamos honestos, não acertou em tudo.
Não escondo o que correu mal. No campeonato, perdeu 9 pontos em 9 jornadas, com empates frente a Estrela, Famalicão e Arouca e uma derrota em casa com o Académico de Viseu. E há um número que inquieta qualquer adepto: foram 18 os jogos da Era Borges em que o Sporting esteve a ganhar e não venceu. Esse foi o seu maior defeito e é justo referi-lo.
Mas olhemos para onde a equipa se encontra no dia em que ele sai:
E sai dois dias depois de duas vitórias seguidas e a dois dias de uma viagem a Londres para a Champions. Não acredito que a época estivesse perdida em Outubro. Não acredito que um treinador novo, por melhor que seja, transforme por magia os mesmos jogadores no espaço de poucos dias ou semanas. E não acredito que trocar um treinador campeão por um nome cujos títulos mais relevantes foram ganhos na Ucrânia, mais uma Taça de Portugal com o Braga, seja garantia de alguma coisa (Deus queira que sim!).
Dito isto, o objetivo deste artigo é de agradecimento e não de comparação ou prognósticos para o futuro. Se há coisa de que vou sentir falta, é da calma. Num futebol português que vive de comunicados, de queixas e de dedos apontados, não me lembro de ver Rui Borges esconder uma derrota atrás de um árbitro. Com o meio-campo desfeito por lesões, a resposta dele era sempre a mesma: não vale a pena queixar-se, compete-lhe arranjar soluções. E arranjava.
Gostei sempre da forma como se apresentou. Quando ganhou o prémio de melhor treinador da Liga, disse que aquele prémio “não é do Rui Borges, mas da equipa técnica, dos jogadores”. Quando agradeceu ao presidente, falou de quem teve a coragem de apostar “no Rui de Mirandela”. Um treinador que subiu a pulso, de Mirandela ao Jamor, sem nunca se armar em mais do que era.
É verdade que, no fim, a humildade começou a soar mais a defesa. Depois de Lens, puxou dos galões e respondeu aos críticos. “Sou muito calmo, às vezes calmo demais”, disse. Mas eu percebo-o. Foram quase dois anos a ouvir que não tinha estatuto, que era um treinador “a prazo”, que tudo o que ganhava era herança de outro. Qualquer um perde a paciência. Ele perdeu-a pouco e tarde.
E durante muito tempo teve o balneário na mão. Viu-se na remontada ao Bodø/Glimt, viu-se no Jamor contra o Benfica, viu-se nas noites em que meio plantel estava no departamento médico e quem entrava jogava como se fosse titular há anos.
Rui Borges sai do Sporting com 99 jogos, 64 vitórias, 22 empates e 13 derrotas: 64,6% de vitórias. Neste século, de todos os treinadores despedidos, só Fernando Santos, em 40 jogos, saiu com uma percentagem ligeiramente superior (65%). Termina com 13% de derrotas: a mais baixa de qualquer treinador do Sporting deste século com mais de 50 jogos.
Não foi um treinador perfeito. Nenhum é. Mas pegou num clube em queda livre, deu-lhe uma dobradinha histórica, levou-o à melhor campanha europeia em mais de 40 anos e fez tudo isto a perder, ano após ano, os seus melhores jogadores. Sem drama, sem desculpas.
Foi um dos treinadores mais subvalorizados da história recente do clube. Desconfio que o tempo lhe vai dar a razão que o presente lhe negou.
Obrigado, mister. Pela dobradinha, pela Champions, pela postura. Foi um privilégio ver o Sporting do Rui de Mirandela. Tudo de bom!
Visão do Leitor: Manuel Abecasis