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«Jorge Jesus para mim é como se fosse um pai» | Entrevista Bola na Rede a Rafinha

Rafinha recordou, em entrevista ao Bola na Rede, os anos sob o comando de Pep Guardiola no Bayern, a relação de pai e filho com Jorge Jesus no Flamengo e a noite da reviravolta frente ao River Plate. Falou ainda da escola portuguesa de treinadores, da chegada de JJ à seleção nacional, do momento de Ancelotti no Brasil, da vontade de um dia ser treinador e do futuro de William Gomes.

«Jorge Jesus para mim é como se fosse um pai» | Entrevista Bola na Rede a Rafinha

Em entrevista ao Bola na Rede, Rafinha recordou os anos sob o comando de Pep Guardiola no Bayern, a relação de pai e filho com Jorge Jesus no Flamengo e a noite da reviravolta frente ao River Plate. Falou ainda da escola portuguesa de treinadores, da chegada de JJ à seleção nacional, do momento de Ancelotti no Brasil, da vontade de um dia ser treinador e do futuro de William Gomes.

Bola na Rede: Como tem sido a tua vida após o fim da carreira nos relvados e a transição para o pós-carreira?

Rafinha: Antes de mais, muito obrigado pelo carinho e por este tempo para falar sobre o meu passado e a minha carreira na Bundesliga. Foi uma transição diferente. Foram 23 anos como jogador profissional e parei no ano passado, retirei-me dos relvados no ano passado. Deu para descansar um pouco e, este ano, em janeiro, já voltei ao futebol como diretor desportivo do São Paulo Futebol Clube, onde estou até hoje, com contrato até dezembro. Fiquei apenas um ano a descansar e este ano trabalhei no São Paulo como diretor desportivo.

Bola na Rede: Como avalias a época do São Paulo até agora e a reta final do Brasileirão, nomeadamente a luta pelo título entre o Palmeiras e o Flamengo?

Rafinha: Pois é, está a ser um ano difícil para nós. Eu, que sou são-paulino desde criança, está a ser um ano difícil para nós: é um ano de política, um ano de eleições no clube para decidir o novo presidente, e tivemos muitos problemas no ano passado e no início deste ano. Está a ser um ano diferente daquilo a que o São Paulo está habituado, mas, diante da situação em que nos encontramos este ano, espero que possamos terminar o campeonato da melhor forma, alcançando uma vaga numa competição internacional, seja na Sul-Americana ou na Copa Libertadores. Foi um ano muito difícil, mas estamos a terminar e espero que possamos acabar da melhor maneira. Quanto à parte de cima da tabela, está muito disputado: o Flamengo e o Palmeiras estão a disputar a liderança ponto a ponto. São duas grandes equipas e tenho a certeza de que vai ser uma luta até ao fim. Há também a parte de baixo da tabela, a zona de despromoção, onde ninguém quer estar, mas vai ser um final de campeonato muito difícil no Campeonato Brasileiro.

«Conquistar títulos num clube tão grande como o Flamengo fica marcado na história»

Rafinha

Bola na Rede: Como recordas a tua passagem pelo Flamengo em 2019 e o trabalho com o treinador Jorge Jesus?

Rafinha: Foi espetacular, um dos melhores anos da minha carreira. Já tinha trabalhado com tantos grandes treinadores, Pep Guardiola, Carlo Ancelotti, Jupp Heynckes, e tive a felicidade de trabalhar com o Mister, com o professor Jorge Jesus no Flamengo, onde vivemos um ano muito vitorioso, um dos mais felizes da minha carreira e acho que da carreira de todos os que faziam parte daquele plantel. Foi uma honra e uma aprendizagem muito grande. Tivemos os nossos embates durante a época, mas foi um dos treinadores com quem mais aprendi na minha carreira. Ele conseguia explicar-me e ensinar-me bem o que eu devia fazer, mesmo depois de eu ter mais de 15 anos a jogar futebol, transmitindo-me muitas coisas da parte defensiva. Foi um treinador que me acrescentou muito na reta final da minha carreira. O que fica mesmo são as boas recordações e o carinho pelo Jorge Jesus, que hoje para mim é como se fosse um pai. Tenho respeito por ele como treinador e como Mister, mas a relação com aquele grupo do Flamengo tornou-se mais do que um treinador e os seus jogadores: tornou-se pai e filho. O quanto ele lutava por nós e o que fazia por nós acho que ainda não tinha vivido isso no futebol, e nós tínhamos a mesma lealdade para com ele. Foi uma união que deu certo: aqueles jogadores com a equipa técnica do Flamengo. Conquistar títulos num clube tão grande como o Flamengo fica marcado na história.

Bola na Rede: Como viveste a reviravolta na final da Libertadores de 2019 contra o River Plate nos minutos finais?

Rafinha: Eu já tinha visto algumas coisas no futebol e passado por emoções enormes: a própria final da Champions em 2013 contra o Borussia Dortmund, onde revirámos no finalzinho (1-0, 1-1 e 2-1); contra a Juventus em Munique (ganhando no prolongamento); e contra o Chelsea na Supertaça Europeia, onde também ganhámos no último minuto. Mas aquela foi uma situação muito diferente. Acho que ninguém acreditava, nem nós, jogadores; se eu disser que a gente acreditava, estou a mentir. Sabíamos que podíamos marcar um golo e empatar o jogo, mas marcar dois golos em três minutos é muito difícil. A equipa do River Plate jogou melhor do que nós na primeira parte, foi superior, mas na segunda parte, com muita persistência e obediência tática, aí entra a parte do Mister, que mantinha a equipa sempre muito bem armada e posicionada, sem ninguém se desorganizar, isso fez-nos acreditar que mantendo a postura conseguiríamos o empate. No final do jogo, em três minutos, conseguimos empatar e dar a volta ao jogo. O Flamengo não ganhava uma Libertadores há 39 anos. Acho que foi espetacular: o Flamengo pode ganhar mais 10 Libertadores no futuro, mas igual a 2019 não vai existir, teve um sabor especial.

Bola na Rede: Como analisas o impacto e o sucesso dos treinadores portugueses no futebol brasileiro nos últimos anos?

Rafinha: Vejo com bons olhos a escola portuguesa de treinadores, que todo o mundo sabe ser uma escola muito boa. Claro que o Mister foi um dos pioneiros que abriu as portas do futebol brasileiro para os treinadores portugueses. Já tinha havido outros no Brasil que não tiveram tanto sucesso, mas o Mister foi um dos primeiros a vencer títulos grandes em equipas brasileiras desta forma, e vejo isso com bons olhos. Torço para que os treinadores brasileiros continuem a evoluir e também para que os brasileiros possam vir para o futebol europeu, para Portugal e para a Europa, porque todos eles têm qualidade para vir para o Velho Continente.

Bola na Rede: Ponderas vir a exercer a função de treinador no futuro?

Rafinha: É possível, sim. Tenho esse desejo: este ano fiz uma época inteira como diretor desportivo, vi como funciona e aprendi muito. Vejo-me sim nessa função, mas preciso de me preparar primeiro, fazendo bons estágios com bons treinadores com quem trabalhei, para que no futuro possa ser treinador também. Tenho vontade e acho que posso acrescentar muito à beira do campo.

Bola na Rede: Como antevês a chegada de Jorge Jesus à seleção portuguesa e a transição do trabalho diário de clube para o tempo reduzido das seleções?

Rafinha: Boa pergunta. É muito difícil para um treinador habituado ao dia a dia de um clube encarar uma seleção, ainda para mais uma seleção com grandes estrelas e grandes jogadores como a de Portugal. Mas tenho a certeza de que ele vai dar conta do recado, pois é um treinador muito detalhista e exigente, juntamente com toda a equipa técnica do Mister. Como falaste, é difícil porque há muito pouco tempo para trabalhar, mas tenho a certeza de que ele vai acompanhar os jogos e os jogadores para desempenhar o trabalho da melhor forma quando estiverem reunidos. Clube é uma coisa, seleção é outra; tive algumas chamadas à seleção brasileira e sei que o tempo é muito curto, totalmente diferente do clube porque o treinador não tem tempo para aplicar as suas ideias, o seu sistema ou método de jogo. Mas com jogadores inteligentes fica muito mais fácil, por isso tenho a certeza de que o Mister se vai sair muito bem na seleção de Portugal e extrair o melhor de cada jogador.

«No futebol brasileiro não existe tempo, existe resultado»

Rafinha

Bola na Rede: Como avalias a passagem de Carlo Ancelotti e o momento da seleção brasileira?

Rafinha: Foi uma época não muito boa para a seleção brasileira. O futebol sul-americano, depois da Argentina, não teve muito sucesso e ficámos pelo caminho. Mas creio que o Ancelotti é um treinador italiano com muita experiência e muito vencedor, que sabe lidar com grandes jogadores e plantéis. Tenho a certeza de que vai dar conta do recado, mas precisa de tempo, e no futebol brasileiro não existe tempo, existe resultado. Infelizmente é assim: se ganha, está tudo bem; se perde, há problemas. Ele está a enfrentar alguns problemas no comando da seleção brasileira, mas tenho a certeza de que vai conseguir dar a volta por cima, sair-se bem e criar uma identidade para a seleção brasileira.

Bola na Rede: Como vivias a intensidade e a rivalidade dos clássicos da Bundesliga entre o Bayern de Munique e o Borussia Dortmund?

Rafinha: É a melhor parte do futebol: os clássicos. Claro que as finais e os títulos são importantíssimos, mas os clássicos são os jogos mais importantes da carreira de um atleta, pois marcam positivamente ou negativamente. Se jogas mal num clássico, ficas marcado para sempre; se jogas bem, és eternizado. Exigem concentração e atenção máxima de todos os jogadores, do primeiro ao último minuto. Ter jogadores experientes e vencedores, que já passaram por muitas situações, ajuda muito nestes momentos em comparação com ter apenas jogadores jovens. O clássico reúne tudo isso: a mistura de veteranos e de jovens que jogam pela primeira vez. O Bayern vs. Dortmund criou uma rivalidade muito grande ao longo dos anos e consegui, diante do Dortmund, obter o maior título da minha carreira, que foi a Liga dos Campeões.

«Tivemos a felicidade de ser campeões em Wembley contra o nosso maior rival na Alemanha»

Rafinha

Bola na Rede: Como foi para ti a caminhada e o sentimento de vencer a Liga dos Campeões pelo Bayern de Munique em 2013?

Rafinha: O caminho foi muito difícil. Eu já tinha batido na trave duas vezes em finais (em 2012 perdemos com o Chelsea em Munique, em casa). Em 2013 tivemos um caminho muito difícil: eliminámos a Juventus e o Barcelona na meia-final, até chegar à final contra o Dortmund em Wembley, o templo do futebol. Tivemos a felicidade de ser campeões em Wembley contra o nosso maior rival na Alemanha. É um troféu que fica eternizado na vida, eternizei-o na minha pele com a tatuagem da tríplice coroa. Depois do jogo acabar é que se entende a dimensão do que significa ganhar uma Liga dos Campeões, e ganhar contra um rival torna tudo ainda mais gratificante. Foi, sem dúvida, a maior conquista da minha carreira.

Bola na Rede: Como descreves a experiência de trabalhar sob o comando de Pep Guardiola no Bayern de Munique?

Rafinha: O Pep é o melhor treinador com quem trabalhei no futebol e o melhor das últimas duas décadas. É um génio do futebol que consegue ver espaços que nós, jogadores dentro do campo, não conseguimos ver. É extremamente inteligente, detalhista e gosta de ter a posse de bola. Foram três anos de aprendizagem, conquistas e títulos importantíssimos, onde sentia verdadeiro prazer em ir treinar e ir para os jogos. Chegávamos aos jogos com tranquilidade e sem pressão, pois sabíamos que a equipa e o treinador eram excelentes e as coisas fluíam. O Guardiola é um génio, e tive a felicidade de jogar com ele durante três anos como titular. Ele fez inclusive uma dedicatória para mim no livro dele, destacando a minha importância na equipa, o que me deixou extremamente feliz e marcou a minha vida. Foram três dos melhores anos da minha carreira.

Bola na Rede: Acompanhas o campeonato português e qual é a tua perspetiva sobre jovens talentos como William Gomes?

Rafinha: Vejo, sim. Joguei com muitos portugueses, conheço muitos jogadores que vieram de Portugal e fui campeão com alguns. O William Gomes é um miúdo que vi começar e estrear-se no futebol profissional connosco no São Paulo. É daqueles jogadores que já se sabe que vai arrancar na carreira, destacar-se e jogar em grandes clubes e grandes ligas. Tenho muito carinho por ele, acompanho o sucesso que está a ter no FC Porto e tenho a certeza de que vai voar muito alto e chegar em breve à seleção brasileira. Ele tem aquele DNA brasileiro do drible, da velocidade e do encanto com a bola, e tenho a certeza de que vai voar muito alto no futebol europeu.

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