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Flamengo e Atlético-MG entram em campo nesta segunda-feira (26), no Maracanã, em um confronto importante para as pretensões rubro-negras no Brasileirão. Mas, para além da disputa pelos três pontos, o encontro carrega uma história de tensão, provocações e episódios que atravessaram gerações. Existe, porém, uma diferença na maneira como essa rivalidade é vivida: enquanto o Flamengo ocupa um espaço especial entre os adversários que despertam ressentimento em parte da torcida atleticana, o Galo não parece ter o mesmo peso para o torcedor rubro-negro.
É uma rivalidade de mão única? Na minha avaliação, sim, ao menos quando se observa o tamanho que esse confronto ocupa no imaginário das duas torcidas. Isso não significa que o flamenguista não se importe em vencer o Atlético ou que não exista rivalidade esportiva entre os clubes. Significa que a relação parece ter intensidades diferentes, alimentadas por histórias e referências que não são necessariamente compartilhadas da mesma maneira.
Para o torcedor do Flamengo no Rio de Janeiro, Vasco, Fluminense e Botafogo ocupam um lugar próprio. São adversários que fazem parte da identidade local, dividem a cidade e estão presentes na rotina de provocações, debates e disputas entre torcidas. O Atlético-MG, por sua vez, não costuma ocupar essa mesma prateleira. É um adversário importante, com história e torcida expressiva, mas não necessariamente um rival da mesma dimensão emocional. No cenário atual, inclusive, o clube mineiro fica atrás do Palmeiras, que construiu uma grande rivalidade com o Rubro-Negro, dentro e fora de campo.
Em Minas Gerais, a percepção pode ser outra. Para muitos atleticanos, enfrentar o Flamengo representa uma oportunidade de confrontar um clube que, há décadas, está associado a algumas das memórias mais dolorosas da história do Galo.
A origem mais emblemática dessa relação está na Libertadores de 1981. Em 21 de agosto daquele ano, Flamengo e Atlético-MG se enfrentaram no Serra Dourada, em Goiânia, em uma partida desempate que definiria quem avançaria na competição continental.
O confronto terminou marcado pela atuação do árbitro José Roberto Wright. Reinaldo foi expulso ainda no primeiro tempo, e outros jogadores atleticanos também receberam cartões vermelhos. Com o Atlético reduzido a seis atletas, a partida foi encerrada antes do tempo regulamentar.
A decisão provocou revolta no lado mineiro e se transformou em uma das histórias mais controversas do futebol brasileiro. O Flamengo avançou na Libertadores e conquistaria o título continental naquele ano. Para o Atlético, ficou a lembrança de uma eliminação associada à arbitragem e a um sentimento de injustiça que continuou presente nas décadas seguintes.
É difícil medir o peso exato desse episódio para cada torcedor, mas sua permanência no debate público ajuda a explicar por que o confronto ganhou uma dimensão especial em Belo Horizonte. Não foi apenas uma partida eliminatória: tornou-se uma referência histórica, frequentemente recuperada sempre que os clubes voltam a se enfrentar.
O tempo não apagou a lembrança. Pelo contrário, novos confrontos importantes acrescentaram capítulos a uma história que já tinha um ponto de partida bastante controverso.
Em 2014, o Atlético voltou a eliminar o Flamengo na Copa do Brasil. Na semifinal, depois de perder o jogo de ida por 2 a 0, o Galo venceu por 4 a 1 no Mineirão, protagonizando uma virada que entrou para a história do clube e abriu caminho para a conquista do torneio.
Dez anos depois, os papéis se inverteram. Flamengo e Atlético decidiram a Copa do Brasil de 2024, na primeira final da competição disputada na Arena MRV. O time carioca venceu por 3 a 1 no Maracanã e confirmou o título com um triunfo por 1 a 0 em Belo Horizonte. A conquista virou motivo de provocação rubro-negra, especialmente pelo cenário da decisão e pela festa flamenguista na casa do adversário.
Em 2025, veio a resposta atleticana. O Galo venceu o jogo de ida das oitavas de final por 1 a 0 no Maracanã. Na volta, o Flamengo devolveu o placar na Arena MRV, mas o Atlético levou a melhor nos pênaltis, por 4 a 3, com atuação decisiva do goleiro Everson.
São episódios que alimentam os dois lados da rivalidade. O flamenguista tem a conquista de 2024 para provocar; o atleticano pode lembrar a eliminação de 2025. A história recente mostra que os confrontos têm peso esportivo real e que nenhum dos clubes pode tratar o outro como um adversário qualquer quando há uma vaga ou um título em disputa.
Mas é justamente aí que está a diferença. A importância competitiva de um jogo não determina, necessariamente, o tamanho de uma rivalidade na identidade de cada torcida. Um confronto pode ser decisivo e carregado de tensão, sem ocupar o mesmo espaço emocional dos dois lados.
A partida desta segunda-feira tem uma dimensão imediata para o Flamengo. A equipe precisa somar pontos para seguir firme na disputa pela liderança do Brasileirão, e o Atlético-MG chega como um adversário capaz de dificultar os planos rubro-negros.
Do outro lado, o time mineiro também tem objetivos importantes na temporada. Finalista da Copa Sul-Americana e semifinalista da Copa do Brasil, o Atlético busca subir na tabela do Brasileirão e se aproximar do pelotão de cima. A meta é garantir uma vaga na Libertadores de 2027, o que torna o confronto relevante para as pretensões da equipe.
A torcida atleticana tem motivos históricos para transformar o Flamengo em um adversário especialmente incômodo. A partida de 1981, as eliminações e as decisões posteriores formaram uma memória coletiva que segue viva. Para o rubro-negro, porém, a hierarquia das rivalidades é diferente, sobretudo no Rio de Janeiro, onde os clássicos estaduais ocupam um lugar próprio.
Isso não diminui o Atlético-MG, sua torcida, ou a relevância dos confrontos entre os clubes. Apenas reconhece que rivalidades também são construídas pela percepção de quem as vive, e que essa percepção nem sempre é simétrica.