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Existem pessoas que passam pelo Palmeiras. Outras deixam marcas que o tempo não consegue apagar. Paulo Nobre pertence ao segundo grupo.
Depois de anos longe dos holofotes do futebol, dedicado aos negócios e aos ralis, o ex-presidente voltou a conversar abertamente sobre o clube em uma entrevista ao programa de estreia Jogando Verde, da Porco House TV, apresentado por Leandro Bocca. E bastaram algumas histórias para lembrar por que seu nome ainda desperta tanto respeito — e também algumas discussões — entre os palmeirenses.
Nobre falou de rivalidade, de dinheiro, de sacrifícios pessoais, da pressão de comandar o Palmeiras e, principalmente, da paixão que o levou a assumir uma responsabilidade que poucos torcedores teriam coragem de carregar.
Mas, para entender o tamanho dessa conversa, é preciso voltar um pouco no tempo.
Antes de ser presidente, Paulo Nobre era apenas mais um garoto apaixonado pelo Palmeiras. Um daqueles que não imaginavam a própria vida sem o clube.
A história de Paulo Nobre com o Verdão começou ainda na infância. Ele já contou que se tornou palmeirense depois de descobrir que Emerson Leão, goleiro que admirava durante a Copa do Mundo de 1974, defendia o Palmeiras.
Foi uma identificação que cresceu junto com ele.
Em 1983, tornou-se sócio do clube. Em 1997, chegou ao Conselho Deliberativo. Depois, passou pela diretoria social, ocupou uma das vice-presidências e, em janeiro de 2013, assumiu a presidência da Sociedade Esportiva Palmeiras.
Não foi uma paixão que apareceu quando surgiu a oportunidade de ocupar uma cadeira importante. Paulo Nobre percorreu os corredores políticos do clube durante anos até chegar ao cargo que desejava desde jovem.
E talvez essa seja uma das diferenças entre simplesmente administrar uma instituição e assumir a responsabilidade por algo que faz parte da própria identidade.
Nobre não chegou ao Palmeiras para descobrir o que significava ser palmeirense. Chegou sabendo muito bem.
Quando Paulo Nobre assumiu a presidência, em 2013, o Palmeiras atravessava uma das fases mais delicadas de sua história recente.
O clube vinha de um rebaixamento, enfrentava problemas financeiros, carregava uma estrutura administrativa que precisava ser modernizada e se preparava para completar cem anos em meio a uma enorme pressão esportiva.
O centenário, que deveria ser uma celebração, acabou se transformando em uma temporada de angústia. O Palmeiras escapou de outro rebaixamento no Campeonato Brasileiro de 2014, mas a sensação era de que o tamanho da instituição já não combinava com a situação que se via dentro e fora de campo.
Foi nesse cenário que Nobre assumiu o papel de reconstruir a casa.
Na entrevista, voltou a falar sobre os recursos próprios que utilizou para ajudar financeiramente o clube. E fez questão de rebater uma interpretação que o acompanhou durante sua passagem pela presidência: a de que estaria tentando comprar o Palmeiras.
A explicação é importante. Nobre não apresenta aqueles recursos como uma doação ou um presente pessoal. Fala de empréstimos feitos ao clube, com condições e juros definidos, em um momento no qual o Palmeiras enfrentava dificuldades para obter crédito no mercado.
O assunto sempre dividiu opiniões. Para alguns, foi uma demonstração de compromisso e uma medida fundamental para manter o clube funcionando. Para outros, a dependência de recursos do próprio presidente levantava questionamentos sobre o modelo financeiro e a relação entre credor e instituição.
Mas há uma coisa difícil de contestar: Paulo Nobre colocou seu patrimônio e sua credibilidade pessoal em uma operação que considerava necessária para tirar o Palmeiras da asfixia financeira.
E não parece ter esquecido o peso das críticas que recebeu por isso.
É compreensível. Afinal, existe uma diferença enorme entre ser questionado por uma decisão administrativa e ouvir que você estaria tentando comprar justamente aquilo que ama.
Talvez a parte mais interessante da entrevista seja perceber que Nobre não fala daqueles quatro anos como quem recorda apenas uma conquista profissional.
Ele fala de um período que consumiu sua vida.
Ao comentar o sacrifício pessoal, deixou uma declaração que resume o tamanho da dedicação exigida pela presidência:
“Eu abri mão da minha vida por quatro anos.”
A frase diz muito sobre o que existe por trás de uma cadeira presidencial.
O torcedor enxerga a escalação, a contratação, a demissão, a entrevista e o resultado de domingo. Mas existe uma rotina inteira que não aparece na televisão: reuniões, cobranças, decisões financeiras, disputas políticas, problemas administrativos e responsabilidades que continuam existindo mesmo quando o time perde.
Nobre contou que deixou de lado sua empresa, os amigos e até os ralis, uma de suas grandes paixões fora do futebol.
E aqui existe uma ironia que só o Palmeiras poderia proporcionar.
O homem que tinha condições de viver tranquilamente sua vida de empresário, investidor e piloto escolheu passar quatro anos tentando resolver os problemas de um clube de futebol.
Não precisava sentir o sofrimento de uma arquibancada. Já tinha acesso ao camarote, ao vestiário e à sala da presidência.
Mas o Palmeiras nunca foi apenas uma posição de poder para ele.
Era uma responsabilidade emocional.
Se existe uma imagem capaz de explicar a relação de Paulo Nobre com o Palmeiras, talvez ela esteja na final da Copa do Brasil de 2015.
O Verdão enfrentava o Santos. Depois de vencer o primeiro jogo por 1 a 0 e perder o segundo pelo mesmo placar, a decisão foi para os pênaltis.
De um lado, milhares de palmeirenses acompanhavam cada cobrança no estádio. Do outro, um presidente que havia passado anos trabalhando para reconstruir o clube tentava sobreviver à disputa longe dos olhos de todos.
Nobre contou que não conseguiu acompanhar os pênaltis normalmente. Ficou no vestiário, encostado em uma parede, com as pernas bambas e de costas para a televisão.
A tensão foi tanta que perdeu a conta das cobranças.
Quando chegou a vez de Fernando Prass, Paulo Nobre já não sabia exatamente o que aconteceria caso o goleiro convertesse. Só ouviu o grito, o barulho que vinha das arquibancadas e percebeu que o Palmeiras era campeão.
E desabou.
Pense nessa cena por alguns segundos.
O presidente do Palmeiras. O homem que comandava a instituição, que havia participado de decisões milionárias, que enfrentava conselheiros, dirigentes, empresários e cobranças diariamente.
Naquela hora, nada disso importava.
Não havia presidente.
Nem havia empresário.
Muito menos piloto de rali.
Havia apenas um palmeirense incapaz de olhar para a televisão porque não suportava a possibilidade de ver seu time perder.
A história é especialmente bonita porque revela algo que o futebol moderno tenta esconder: por trás de toda a estrutura profissional, dos contratos, das planilhas e dos cargos, ainda existe alguém que sente como torcedor.
E, naquela noite, Paulo Nobre sentiu tudo de uma vez.
A entrevista também trouxe uma discussão que merece atenção: a postura de dirigentes que evitam pronunciar o nome de clubes rivais.
Nobre criticou a atitude de cartolas que se recusam a falar “Corinthians” ou “São Paulo” por considerarem esses clubes adversários do Palmeiras.
Sua cobrança foi direta:
“Presidente de instituição não pode agir assim, cara, desculpa.”
E completou:
“Você pode odiar os caras, meu, mas os caras são uma instituição e você é presidente de uma outra instituição.”
É uma declaração que conversa muito com a identidade do torcedor palmeirense.
Dentro de campo, queremos rivalidade. Queremos vencer o Corinthians, provocar o São Paulo, comemorar uma vitória sobre o Santos e lembrar o resultado no dia seguinte. Faz parte do futebol. Faz parte da graça de acompanhar um clube.
Mas existe uma diferença entre rivalidade esportiva e comportamento institucional.
O adversário pode ser o maior rival do mundo durante noventa minutos. Fora de campo, continua sendo uma instituição que precisa ser respeitada.
E Nobre parece defender justamente isso: não é necessário fingir amizade com o rival, muito menos abandonar a provocação. O que não faz sentido é transformar uma rivalidade esportiva em incapacidade de reconhecer a existência do outro.
Talvez o futebol brasileiro precise ouvir mais vezes essa distinção.
É possível querer vencer o rival de todas as maneiras dentro das quatro linhas e, ao mesmo tempo, entender que o presidente de um clube não ocupa o cargo para agir como um torcedor provocando na arquibancada.
Outro momento importante da conversa foi quando Paulo Nobre falou sobre o Palmeiras atual.
Sem transformar a entrevista em uma defesa da gestão presente, deixou um recado à torcida: é preciso aproveitar o momento vivido pelo clube e permanecer unido em torno da instituição.
A mensagem ganha peso quando vem de alguém que conheceu o Palmeiras em uma situação completamente diferente.
Nobre assumiu o clube em um período de dificuldades financeiras e esportivas. Durante sua gestão, o Verdão conquistou a Copa do Brasil de 2015 e o Campeonato Brasileiro de 2016. Também passou por uma transformação administrativa, comercial e estrutural que ajudou a preparar o terreno para o ciclo vitorioso que veio depois.
Isso não significa que tudo tenha sido perfeito. Nenhuma gestão é. Mas seria injusto olhar para a história recente do Palmeiras sem reconhecer a importância daquele período.
E talvez seja justamente por conhecer o fundo do poço que Nobre tenha tanta preocupação em lembrar ao torcedor que o presente precisa ser valorizado.
O Palmeiras não chegou até aqui por acaso. Houve trabalho, investimento, decisões difíceis, erros, acertos e muita gente envolvida em diferentes momentos.
A torcida tem todo o direito de cobrar. É parte de sua função. Mas também precisa entender que disputar títulos com frequência, ter estrutura e conseguir planejar o futuro não é algo que deve ser tratado como obrigação natural e eterna.
O futebol muda rápido. E quem já viu o Palmeiras sofrer sabe muito bem disso.
Talvez a declaração mais simbólica da entrevista esteja na maneira como Nobre enxerga seu futuro no futebol.
Ele deixou claro que não pretende trabalhar em outra instituição. Não quer assumir um cargo na CBF, não deseja ser dirigente de outro clube e não parece interessado em transformar sua experiência em uma carreira no mercado esportivo.
Sua história no futebol, para ele, começou e terminou no Palmeiras.
E existe algo muito bonito nessa decisão.
Paulo Nobre teve o poder de ocupar a principal cadeira do clube. Participou de decisões que mudaram a história recente do Verdão. Colocou recursos próprios à disposição da instituição, enfrentou críticas, viveu conquistas e carregou problemas que não eram apenas seus.
Agora, prefere voltar à arquibancada.
O homem que um dia precisava decidir o futuro do Palmeiras quer simplesmente acompanhar o time. Sofrer com uma escalação, reclamar de uma substituição, comemorar um gol e discutir futebol sem precisar entrar em uma reunião do Conselho Deliberativo na manhã seguinte.
É quase uma volta para casa.
E talvez seja aí que esteja a maior lição dessa entrevista.
O poder passa. O cargo termina. As reuniões ficam para trás. Os adversários políticos seguem suas vidas. Mas a paixão continua.
Não é necessário concordar com todas as decisões de Paulo Nobre para reconhecer a importância de sua passagem pelo Palmeiras.
É possível discutir os empréstimos, questionar escolhas, apontar erros e reconhecer que a reconstrução do clube também teve a participação de outros profissionais, dirigentes, patrocinadores, atletas e torcedores.
Mas existe uma imagem que dificilmente será esquecida: a de um presidente escondido no vestiário, com as pernas bambas, incapaz de acompanhar a cobrança de um pênalti porque estava sofrendo como qualquer palmeirense.
Talvez seja por isso que sua entrevista tenha despertado tanto interesse.
Depois de tantos anos longe dos holofotes, Nobre não voltou para pedir cargo, reivindicar reconhecimento ou anunciar uma candidatura. Voltou para contar histórias, dar opiniões e lembrar que, antes de qualquer coisa, é um torcedor.
E que torcedor!
Aquele menino que descobriu o Palmeiras por causa de Emerson Leão chegou à presidência, atravessou uma das fases mais difíceis da história recente do clube e participou de uma reconstrução que terminou com títulos nacionais.
Hoje, pode voltar a ocupar seu lugar na arquibancada.
Sem precisar resolver a dívida do clube, nem precisar escolher treinador. Sem atender telefone de empresário e portanto sem precisar carregar o peso de quatro anos nas costas.
Só precisa fazer aquilo que fazia antes de tudo isso: torcer.
Paulo Nobre pode até ter deixado a presidência em 2016, mas algumas pessoas nunca deixam de fazer parte da história de um clube.
E, para uma parcela enorme da torcida, ele continuará sendo o presidente que ajudou o Palmeiras a reencontrar o próprio caminho.