Voltar
É fato que a principal preocupação do torcedor colorado neste momento é a permanência na Série A do Campeonato Brasileiro. Entretanto, há outro assunto que também interessa, principalmente por envolver o futuro do clube. Trata-se da eleição presidencial, que conta com três candidatos na disputa.
José Amarante, Leonardo Aquino e Roberto Melo são os concorrentes a assumir o posto ocupado por Alessandro Barcellos, eleito no fim de 2020 e reeleito três anos depois. O Grupo RBS realizará sabatinas com os três candidatos à presidência do Inter nesta semana.
Em 9 de novembro, ocorre a votação no Conselho Deliberativo. Os dois candidatos mais votados, que ultrapassarem 15% dos votos (cláusula de barreira), avançarão ao "pátio". A votação dos sócios está marcada para 12 de dezembro. O próximo presidente comandará o Inter entre 2027 e 2029.
Abaixo, Zero Hora lista os 10 principais desafios que o novo presidente terá.
Até 2025, a dívida do Inter era de R$ 929 milhões (R$ 755 milhões sem considerar o Beira-Rio). Segundo Amir Somoggi, sócio da Sports Value e economista especialista em finanças esportivas, o valor já ultrapassa R$ 1 bilhão atualmente.
Nos primeiros sete meses de 2026, o clube registrou um déficit de R$ 160 milhões, R$ 40 milhões acima do previsto. Entre os fatores que contribuíram para o resultado estão a frustração das receitas com patrocínios e negociações de jogadores. Para esta última fonte de receita, a previsão era de R$ 204,9 milhões, mas o clube arrecadou apenas R$ 65,1 milhões até o momento.
— Tem que fechar a torneira de um lado. É um tripé, que vale para qualquer clube. Redução de dívida, que a dívida é atualizada, os juros estão nas alturas, então não adianta ter dívida. Tem que procurar reduzir dívida, controlar orçamento para não aumentar o bolo e maximizar receitas — comentou Amir Somoggi.
O especialista estima que, se o plano for colocado em prática, o Inter poderá voltar a ter competitividade constante em cerca de três anos. Para isso, será fundamental crescer em faturamento. Vale destacar que, uma eventual queda para a Série B, deve gerar um prejuízo de mais de R$ 120 milhões de cotas de televisão em comparação ao que é pago na primeira divisão.
Outro ponto que requer atenção é a quantidade de transfer bans que o Inter pode ter até o início da próxima gestão. O Colorado tem uma dívida de R$ 120,3 milhões em transferências realizadas desde 2021, sendo que R$ 58,8 milhões já venceram. Deste valor, ausências de pagamentos nas contratações de Juninho, junto ao Midtjylland (Dinamarca), e Ramon, que estava no Olympiacos (Grécia), geraram punições na Fifa.
Entretanto, o Inter corre o risco de sofrer mais cinco novos transfer bans em processos que ainda estão em curso. O próximo pode ser referente à compra do volante Benjamin, que veio do Dansoman Wise, de Gana.
A falta de uma marca na parte central da camisa deu dor de cabeça ao Inter em 2026 e impactou negativamente os cofres do clube. A ideia inicial da direção era faturar R$ 50,4 milhões em patrocínios entre janeiro e julho deste ano. Contudo, o valor chegou apenas a R$ 20,7 milhões. A justificativa para não atingir o valor planejado é justamente a falta de um patrocínio máster.
A partir do segundo semestre, o Inter até fechou acordos pontuais com algumas marcas. O valor arrecadado foi limitado pelo pequeno número de partidas contempladas. Sendo assim, não teve impacto considerável nas finanças como teria uma grande marca durante o ano todo.
Há também o desafio de encontrar um novo patrocinador fora do mercado de apostas esportivas, já que estão proibidas por força de medida provisória do governo federal. Essas marcas dominaram o futebol brasileiro ao oferecer valores mais elevados do que os de outros segmentos. Sem elas, os clubes, incluindo o Inter, precisam se adaptar a uma nova realidade, marcada por contratos de patrocínio de menor valor.
Embora alguns torcedores defendam a adoção de um novo modelo de gestão no Inter, os especialistas estão divididos sobre a transformação do clube em SAF neste momento. Para Somoggi, o cenário não é favorável, principalmente em razão do elevado endividamento, que acaba reduzindo o valor de mercado do clube.
Contudo, Cesar Grafietti, consultor de Gestão e Finanças do Esporte, traz outra perspectiva, a de que o projeto por trás do comprador importa mais do que o valor a ser investido.
— Quem compra um clube de futebol, teoricamente, tem como primeiro projeto resolver o problema das dívidas, porque não dá pra trabalhar com dívidas tão altas no mercado como o brasileiro. Segundo, é investir para que esse ativo cresça. Então, o desafio no processo não é ficar preocupado se o valor anunciado é de R$ 50 milhões, R$ 100 milhões ou R$ 1 bilhão — afirmou.
Outro ponto que tem gerado debate entre os colorados é a possibilidade do clube entrar com um pedido de recuperação judicial, algo que já foi sugerido pela Alvarez & Marsal, consultoria especializada em melhoria de desempenho empresarial e gestão de recuperação, contratada pelo Inter para estudar o cenário financeiro do clube e propor alternativas para o futuro.
A recuperação judicial tem como objetivo principal a reestruturação e renegociação das dívidas junto aos credores, além de servir como alternativa para salvar empresas da falência. No futebol brasileiro, o mecanismo foi utilizado nos últimos anos por equipes como Cruzeiro, Coritiba, Botafogo e Vasco.
— Boa parte das dívidas são dívidas tributárias, fiscais, que a recuperação judicial não atinge. As trabalhistas têm pouca coisa onde consegue ser relevante. Então, não é esse o grande salto, e não são as maiores dívidas. Se olhar as dívidas bancárias ou qualquer tipo de operação financeira, normalmente são operações com garantias que ficam fora da recuperação judicial — explicou Cesar Grafietti sobre como funciona a recuperação judicial.
O especialista classifica o movimento como um "recado ruim" para o mercado, já que alguns clubes e financiadores podem evitar negociações por conta dos riscos financeiros.
— Está todo mundo nessa bola da recuperação judicial, mas não é bom para a marca e para o time entrar em recuperação judicial. É bom para as dívidas, você renegocia dívidas, alonga, pode pagar valores muito mais baixos, mas essa é a parte financeira. Para a marca, para a reputação, para o desenvolvimento, eu não vejo com bons olhos — complementou Amir Somoggi.
A atual gestão do Inter já indicou que não entrará com o processo de recuperação judicial. O movimento mais recente foi o de ingressar com um pedido de Plano de Parcelamento Coletivo junto à Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD). Segundo nota divulgada pelo clube, o programa abrange o pagamento de R$ 31 milhões em dívidas, valor que pode aumentar conforme a adesão de novos credores.
Um dos desafios será estabelecer continuidade no trabalho das categorias de base. Nos últimos seis anos, o Inter teve quatro coordenadores no setor. O atual é Carlos Noval, que chegou após passagem vitoriosa e com jogadores de destaque revelados no Flamengo. Os candidatos ainda não indicaram se irão optar pela permanência dele.
Dentro de campo, os resultados das categorias mais próximas do profissional não foram bons. Em 2025, o time sub-20 foi rebaixado para a Série B e não conseguiu retornar à primeira divisão em 2026. Já na categoria sub-17, o Inter terminou na 13ª colocação.
Nesta temporada, nenhum atleta das categorias de base conseguiu se firmar no time principal. O mais próximo foi Allex, que disputou 25 jogos e marcou dois gols. Benjamin, João Bezerra, João Kempes, João Victor e Luiz Felipe foram outros jovens testados. Há nomes bem avaliados como Fabrício Prado e Ryan Norato que devem receber espaço em 2027.
Será dever do novo presidente cuidar de um dos principais "tesouros" que o Inter tem no momento: a categoria sub-15. Campeã da primeira edição da Copa do Brasil e do Gauchão, a equipe treinada por Douglas Rodrigues tem três atletas convocados para o Mundial da categoria, que será disputado neste mês, no Azerbaijão. O Inter é o clube com mais jogadores entre os 14 convocados, cenário que se repetiu em convocações ao longo de 2026.
Na Copa do Mundo estarão o goleiro Arthur, o zagueiro Guilherme Borges e o meia Brenner. Também foram convocados durante o ano os atacantes Asafe, Kelwin Araújo e o zagueiro Maurício Matheus.
É algo a ser trabalhado em conjunto com Tinga, ex-jogador do Inter e líder do projeto CTorcedores. A iniciativa busca arrecadar fundos para a construção de um novo centro de treinamento para o clube para oferecer estrutura e equipamentos mais modernos aos jogadores do profissional e da base.
O plano é arrecadar R$ 30 milhões para dar início às obras, que irão contemplar um Centro de Performance e um hotel para hospedar os atletas. Os atuais campos do CT devem ser mantidos.
Até o momento, a campanha tem arrecadado doações de torcedores, mas sem altos valores depositados de uma vez. O novo presidente pode ajudar Tinga a buscar investidores para o projeto e acelerar a iniciativa para começar a construção o quanto antes.
Talvez seja o tema de maior indefinição para o novo presidente resolver. Primeiro, porque ainda não se sabe a divisão nacional que o Inter disputará em 2027. Isso interfere nos objetivos da equipe na temporada e também impacta no investimento que poderá ser feito para buscar o novo treinador.
Eduardo Baptista tem contrato até o fim da temporada. Caso consiga livrar o Inter do rebaixamento, pode se tornar um nome bem avaliado pelos candidatos. Uma queda para a Série B, por outro lado, reduziria consideravelmente as chances de permanência.
É outro fator que dependerá diretamente da permanência ou não do Inter na Série A do Campeonato Brasileiro. Um eventual rebaixamento diminui a capacidade de investimento do clube, o que tende a levar a contratações de menor expressão.
Mesmo se continuar na primeira divisão, o Inter não deverá apostar em contratações caras por conta da situação financeira que a equipe enfrenta. Em um primeiro momento, antes de contratar, o novo presidente terá de definir o futuro dos jogadores cujos contratos se encerram no fim deste ano.
Mercado e Bruno Henrique, já em fase final da carreira, podem se aposentar ou estender o vínculo por mais uma temporada. Thiago Maia ainda tem mercado no Brasil e já interessou outros times da Série A. Rochet não deve seguir, pois tem cláusula de renovação automática que não será alcançada.
Há também o caso de atletas emprestados. Villagra e Alerrandro, ambos pertencentes ao CSKA, da Rússia, têm cláusulas de compra. O volante argentino é quem mais agradou e deve permanecer no Beira-Rio se o Inter não for rebaixado.
Recuperar a conexão com a torcida também será um dos desafios. Em meio à luta contra o rebaixamento, o Inter registra média de 21.601 torcedores no Brasileirão de 2026, a 13ª da competição. Aumentar a presença no Beira-Rio passa por melhorar o desempenho esportivo, mas também por ações de relacionamento, promoções e estratégias para o quadro social.
E conquistar o torcedor será necessário para voltar a lotar o Beira-Rio. No Brasileirão de 2026, por exemplo, a média do Inter é de 21.601, sendo a 13ª da competição. Promoções, contratações de impacto ou até a briga por títulos. O novo presidente terá diferentes alternativas para levar mais torcedores ao estádio e precisará do apoio deles para ter um mandato tranquilo.
É algo difícil de planejar para 2027, mesmo com o Inter permanecendo na Série A. Os três candidatos adotam discursos mais cautelosos sobre investimentos e priorizam diminuir o endividamento do clube para o ano que vem. Isso não impede que o torcedor volte a sonhar com títulos já no próximo mandato.
A construção de um time competitivo não será rápida, mas pode consolidar novos nomes e uma nova forma de contratar dentro do Inter. É de se imaginar que, pelo menos no primeiro ano, contratações mais baratas sejam feitas. Talvez seja o caminho para um recomeço do Colorado.
O cenário financeiro e esportivo aumenta a importância do próximo presidente construir uma forte rede de apoio fora do campo. Se tiver êxito nos pontos colocados acima, ou na maioria deles, o novo presidente tende a ter mais apoiadores.
Mais do que prometer resultados imediatos, o desafio será construir respaldo político para um projeto que pode exigir ajustes financeiros antes de devolver ao Inter maior capacidade de investimento e competitividade.