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A situação do Palmeiras no Brasileirão se complicou com o empate contra o Santos. Não fosse esse tropeço, o time de Abel Ferreira ainda dependeria apenas de nossas forças, ainda que as probabilidades não fossem das mais favoráveis, já que ainda teríamos, de qualquer forma, a obrigação de vencer todos os jogos restantes.
O que poderia tornar nossa missão menos inglória seriam eventuais tropeços do Flamengo. O time carioca, no entanto, enfileirou cinco vitórias seguidas e parece caminhar de maneira sólida para a conquista.
O que chama atenção, no entanto, é que nessas cinco partidas, quatro foram contra adversários que pouparam parte ou mesmo todo o time titular. A despeito da boa atuação contra os titulares do Bahia, na Fonte Nova, o Flamengo teve o caminho pavimentado por escalações alternativas de Atlético-MG, Fluminense, Vasco e Grêmio.
Rivais ferrenhos estão abrindo mão de usar suas forças máximas no Brasileirão contra o Flamengo, por entenderem que, a esta altura do campeonato, com os jogadores esbagaçados, seria mais prudente poupá-los para partidas que as vitórias teriam maior importância, em suas avaliações. Desta forma, usando um recurso lícito, estão desequilibrando o campeonato em favor do clube da Gávea.
Há em nossa torcida quem alimente as famosas teorias conspiratórias – e não se trata aqui de descartar nenhuma sem considerá-las. Mas que faz algum sentido num país com o nosso calendário, que decisões assim sejam tomadas, passando por cima até de rivalidades históricas, faz. Infelizmente, faz.
Podemos ainda projetar este modelo de decisão para outras partidas, em outros contextos, e podemos inferir que não apenas a briga pelo título, mas a luta por vagas nas competições continentais e a própria briga contra o rebaixamento podem ser contaminadas, distorcendo bastante o resultado esportivo da competição.
E a raiz desses problemas é uma só: a arquitetura do calendário, que, por sua vez, está intrinsecamente ligada ao modelo organizacional do futebol brasileiro, que acomoda clubes e federações na estrutura de poder.
Um calendário mais racional não eliminaria as diferenças entre os elencos nem impediria que treinadores eventualmente decidissem poupar atletas. Mas certamente amenizaria esse efeito, ao reduzir a necessidade de escolher em quais partidas vale a pena utilizar a força máxima.
É nesse ponto que a discussão vai ao encontro de uma das reclamações mais recorrentes de Abel Ferreira. Nosso treinador, entre outros apontamentos, insiste na necessidade de reformular o calendário brasileiro.
A forma com que Abel se manifesta, resultado de seu temperamento e de sua nacionalidade (custa aos brasileiros compreender que, de forma geral, a maneira de se expressar dos portugueses, apesar do idioma, não é a mesma que a nossa), gera resistência.
A camisa que ele defende, por certo, aumenta a repulsa. E o que se vê, na maioria das vezes, são jornalistas brasileiros nos causando a chamada vergonha alheia; destilando preconceito travestido de nacionalismo, exalando clubismo ao transformar os conceitos defendidos em desculpas.
A tabela está feita há muito tempo e ninguém poderia imaginar que os clubes envolvidos fossem levados a essas escolhas. O Flamengo, eliminado das Copas, deu sorte na definição do Brasileiro, é fato. Mas não é possível que esse fenômeno dos times reservas não incomode a comunidade do futebol. Será que precisa ser outro o time a ser beneficiado pela sorte para que essa discussão venha à tona?
As teorias conspiratórias estão aí para divertirem o povo. Como toda diversão, acaba servindo de distração, e o real problema acaba ficando em segundo plano.
A imprensa brasileira não precisa gostar de Abel Ferreira para discutir suas propostas; precisa avaliar se elas fazem sentido. O Flamengo está prestes a conquistar mais um Campeonato Brasileiro e, se conseguir, terá sido jogando mais de 10% da disputa contra equipes auto-enfraquecidas pelo calendário.
Chega a mesa redonda do domingo; os jornalistas ficam se perguntando por que nosso mercado é tão mais fraco que os europeus, por que nossos clubes não conseguem segurar os talentos, enquanto reclamam da vida e do treinador português folgado daquele time dos italianinhos.
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