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Cristiano Ronaldo se despediu da seleção portuguesa.
O anúncio, feito em vídeo nas redes sociais na véspera da divulgação da convocação, encerra 23 anos de ligação com a equipe— 234 jogos e 146 gols, números que o tornam o jogador com mais partidas e mais gols por uma seleção na história.
Mas o fim chegou envolto numa polêmica que se arrasta desde setembro e que, para muitos, expôs mais do que uma simples divergência de ideias entre treinador e jogador.
As opiniões estão divididas. Há quem defenda Jorge Jesus pela legitimidade da autoridade técnica: as decisões de escalação cabem ao técnico, as regras devem ser iguais para todos e nenhum jogador — por maior que seja o seu status — pode condicionar o projeto.
Outros consideram a reação de Ronaldo excessiva ou “mimada”, sobretudo pelo abandono da concentração antes do jogo contra a Dinamarca e pela forma como a situação foi tornada pública.
Ainda assim, a percepção de que faltou diplomacia e tato na gestão de um jogador “fora da curva” (pelo estatuto, pela carreira e pelo impacto que tem dentro e fora de campo) está presente em várias análises e comentários.
A gestão do aquecimento contra a Noruega — em que Ronaldo entrou para aquecer e não foi utilizado —, as declarações assertivas de Jesus nas coletivas (“No time mando eu”, “Nunca nenhum jogador vai mudar as minhas ideias”) e a forma como o caso foi tratado publicamente geraram críticas sobre a sensibilidade necessária para lidar com um capitão e símbolo como Ronaldo.
Vale lembrar que outros jogadores históricos, como Messi, Neymar e vários outros, dificilmente foram tratados, ao longo da carreira, exclusivamente sob o critério puro da “autoridade técnica”. Em momentos decisivos, o tamanho, o histórico e o peso que esses atletas carregam quase sempre influenciaram a forma como técnicos e dirigentes lidaram com eles — não necessariamente com privilégios absolutos, mas com um cuidado e uma comunicação que vão além das regras iguais para todos.
Com Ronaldo, muitos enxergaram a ausência desse cuidado.Mesmo quem reconhece a autoridade do treinador admite que o tratamento de um jogador com a dimensão de Ronaldo exigia mais atenção na comunicação e na gestão de expectativas.
Ronaldo anunciou a despedida sem avisar diretamente Jesus. Comunicou sobretudo ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Proença.
Do lado do técnico, a reação foi de aceitação: disse que pediu a Ronaldo para continuar, porque precisava dele ao seu lado, mas que tem de respeitar a decisão do jogador.
Destacou-o como referência mundial e símbolo para a juventude portuguesa — uma forma de reconhecer o legado, mesmo depois do desgaste.
No fim, o episódio deixa uma pergunta no ar: gerir um jogador de dimensão tão excepcional exige apenas autoridade técnica, ou também uma dose de tato que vá além das regras iguais para todos? As opiniões continuam divididas.
O que parece consensual é que o adeus de Ronaldo à seleção não aconteceu da forma que muitos imaginavam — e que a maneira como o caso foi conduzido contribuiu para que o fim chegasse mais cedo e de forma mais turbulenta do que o necessário.