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Miguel Moita, treinador campeão da II Liga na época passada, não se arrepende de ter saído do Marítimo, a seu pedido, no final da temporada. «Não existia empatia e apoio em relação ao trabalho apresentado», sustenta o técnico, que está livre no mercado.
Depois de muitos anos no estrangeiro ao lado de Leonardo Jardim, o antigo adjunto do treinador do Flamengo quer seguir a aventura como treinador principal iniciada há um ano. De preferência, em Portugal, onde tem procurado um projeto «sustentado» nas Ligas profissionais. O Médio Oriente, onde já trabalhou, tem chamado por Moita.
Em entrevista ao Maisfutebol, o treinador, que se define como «equilibrado», revela como tem aproveitado este interregno (com muito desporto à mistura) e reflete sobre a passagem de sucesso no Marítimo.
Mais à frente, falamos sobre os conselhos de Leonardo Jardim, a importância de um diretor-desportivo como Luís Campos e ainda uma visão atual sobre dois craques mundiais que orientou no Mónaco – Kylian Mbappé e Bernardo Silva.
Parte I - Miguel Moita, dos trails aos convites do Médio Oriente: «Quero Portugal»
Parte II - «Leonardo Jardim perguntou-me se agora já sei o que são noites mal dormidas»
MF: Começando pelo passado recente: como tem aproveitado o tempo neste interregno, desde que saiu e saiu do Marítimo?
Miguel Moita: A partir do momento em que não surgiu nenhum projeto, concentrei-me bastante na família. O período final no Marítimo foi de enorme intensidade e desgaste emocional - subir de divisão e ser campeão foi marcante, mas também exigente. Senti necessidade de desligar e relaxar, por isso fiz férias em família. Tenho aproveitado para realizar atividades que a rotina do ativo não permite, como trails, corrida e padel. Além disso, acompanho de perto o dia a dia das minhas duas filhas, desde as tarefas escolares às atividades extracurriculares, algo fundamental para mim.
Nas redes sociais, partilha frequentemente imagens a praticar corrida. Esta prática é também um reflexo da resiliência exigida a um treinador?
Sem dúvida. Faço corridas longas e trails e, normalmente de 32 quilómetros, e ali aos 20 surgem momentos em que surgem vozes na cabeça a dizer 'não vais conseguir'. Superar esse obstáculo exige lutar contra o cansaço e a dor. Embora seja apenas um hobby, o princípio aplica-se ao futebol de alta competição: quando se luta por objetivos elevados, é indispensável vencer a dor, manter uma mentalidade forte, demonstrar resiliência e ambicionar sempre mais.
Os jogadores deixam de ter desculpa para correr menos do que o treinador.
Certo. Pode ser um bom exemplo para lhes colocar [risos].
Teve abordagens recentes para regressar? O que tem faltado para voltar ao ativo?
Surgiram algumas abordagens, sobretudo do estrangeiro. Confesso que me surpreendeu não ter havido ainda um maior envolvimento do mercado nacional, considerando que conquistei o título da II Liga e promovi o Marítimo à Liga. O meu objetivo atual passa por consolidar a carreira como treinador principal em Portugal, por ser um mercado exigente, com boa visibilidade e excelentes jogadores. Não queria emigrar precocemente. Os contactos do Médio Oriente chamaram, mas o aspeto financeiro não é a minha prioridade neste momento. Pretendo estabelecer-me no mercado nacional, seja numa II Liga para lutar pela subida, seja numa Primeira Liga num projeto sustentado. Sendo um treinador que foi campeão, gostava de ter essas portas abertas.
O que é, para si, uma equipa à Miguel Moita?
Não sou radical em nada na minha vida. Considero-me um treinador equilibrado. Gosto de equipas protagonistas, mas sempre preparadas para o momento defensivo. Uma equipa intensa defensivamente, mas que não corra riscos desmesurados. Objetiva em termos ofensivos, com boas dinâmicas de corredores e agressividade nas zonas de finalização.
Ainda agora começou como treinador principal, mas já tem sistema tático preferido?
O sistema mais confortável para mim e mais fácil para os jogadores entenderem é o 4-3-3. O 1-2 no meio-campo passa rapidamente para 2-1. É aquele com que mais me identifico. Mas também gosto muito do 3-4-3. Podemos ter uma pressão mais forte no meio-campo, ter os extremos por dentro a fechar. Gostava muito da equipa do Sporting do Ruben Amorim. Se conseguires ter jogadores para esse sistema, aquilo funciona muito bem. Fala-se muito da linha de cinco, mas o lateral de um lado era sempre um extremo. Esses cinco acabavam por ser quatro. E quando precisavam de baixar o bloco, punham linha de cinco. Acho que o Farioli faz isso muito bem também no FC Porto. Há momentos em que é preciso estar confortável a defender em bloco baixo. E vi isso contra o Torreense na Supertaça. Fiz isso no Marítimo no ano passado, quando estávamos a ganhar ao Leiria 2-1 e nos últimos cinco minutos eu fechei e meti mais um central. Uma coisa é a identidade principal, outra coisa é uma mudança no jogo. Depende dos jogadores que temos.
Gosto de equipas protagonistas, mas sempre preparadas para o momento defensivo"
Como surgiu o convite do Marítimo na época passada? Sente que continua a ser difícil entrar no circuito de treinadores que roda entre a Primeira e a Segunda Liga?
Acredito que já foi mais difícil, embora continue a não ser fácil. No meu caso em particular, fui um jogador banal, o percurso é mais complexo. Contudo, desde a afirmação de técnicos como José Mourinho, André Villas-Boas ou Leonardo Jardim, abriram-se portas. Acho sim que há muitos treinadores que estão no mercado e gente de fora. Senti essa dificuldade antes de ingressar no Marítimo. O principal desafio passa por aceder às pessoas certas e demonstrar preparação. Mais do que "cunhas", trata-se de redes de conhecimentos privilegiados que facilitam conversas importantes, algo totalmente natural. Por outro lado, depende do perfil pretendido pelos clubes. O Marítimo procurava um perfil específico e definiu bem esse critério, o que é fundamental na gestão desportiva: saber se se pretende alguém muito experiente e rígido, ou um perfil com flexibilidade sem perda de liderança.
Teve um gozo especial ser campeão na primeira experiência como treinador principal?
Não sei se tive mais gozo, mas talvez houvesse alguma pressão acumulada, tanto externa como interna, por ser a estreia. No entanto, vencer dará sempre gozo, quer nesta primeira experiência, quer nas próximas. Já sentia essa satisfação enquanto treinador adjunto, pois é a vitória que nos move. Como refere o selecionador nacional [Jorge Jesus], no fim o que conta é ganhar.
Em que momento da época percebeu que o título já não fugiria?
Não foi cedo. Tentei que na minha cabeça não acontece, pois quando sentimos, transmitimos isso. Sentimentos geram emoções. A II Liga é extremamente competitiva: podíamos vencer o segundo ou terceiro classificado e, logo a seguir, perder com o Feirense, como aconteceu. Havia elementos no staff, departamento médico e balneário a ter esse discurso, e eu tentava rebater. O discurso do treinador propaga-se e é essencial manter o foco.
Houve algum jogo em particular que marcou essa viragem?
Talvez o jogo anterior à receção ao Benfica B. Vencemos a Oliveirense em casa num desafio muito complicado (1-0), apesar de o adversário ocupar o último lugar. Nesse momento, senti que estávamos muito próximos do objetivo.
O melhor marcador do Marítimo na época passada foi Carlos Daniel, com 11 golos, distante dos maiores goleadores do campeonato. Isto reflete a força do coletivo?
Sim. Coletivamente fomos, sem dúvida, os mais fortes, embora reconheça maior valor individual noutras equipas, como o Torreense ou o Académico de Viseu. No Marítimo, o grupo estava extremamente concentrado. O rendimento do Carlos Daniel resultou desse trabalho coletivo: ele jogava como o nosso médio mais ofensivo e beneficiava do trabalho do Adrian Butzke em fixar centrais e abrir espaços. O próprio Butzke realizou a melhor época da carreira, alcançando dez golos, sendo determinante no processo.
Pedi mais agressividade sem bola na chegada a área ao Martin Tejón"
Sobre o Martin Tejón, que continua a destacar-se no Marítimo após a passagem pelo Valência: como avalia o seu crescimento?
Quando cheguei, o Martin já integrava a equipa principal, era um habitué, mas faltavam-lhe números e presença na área. Pedi-lhe maior agressividade no jogo sem bola e na chegada à zona de finalização, aspetos essenciais para um extremo. Ele pode confirmar isso. Sempre demonstrou enorme foco nos treinos e uma intensidade assinalável. Destaco, aliás, a formação dos jogadores espanhóis com quem trabalhei: possuem um método rigoroso e uma concentração exemplar que contagiam o grupo. Não quer dizer que os portugueses não sejam assim, claro. O Tejón é tecnicamente muito forte e lê bem o jogo. Precisa ainda de evoluir no um contra um e na presença na área oposta, mas sabe pausar o jogo e dar espaço para a equipa respirar, uma qualidade preciosa que será muito útil ao Marítimo no escalão principal.
Marítimo e Académico de Viseu mantiveram a base da temporada anterior têm estado bem. Mostra a competitividade da II Liga?
Sim. O que percebo, e que nos pode levar a pensar, tanto treinadores como dirigentes, é que, quando a dinâmica de um grupo é positiva, grande parte do trabalho está adiantado. Manter essa coesão facilita a comunicação e a implementação de processos. Grande parte do onze base de ambas as equipas transitou da época passada. Os reforços que chegaram necessitam de tempo de adaptação a novas realidades, no caso do Marítimo. Para um treinador, apoiar-se num núcleo duro traz estabilidade e qualidade imediata ao jogo.
Relativamente à sua saída do Marítimo: a decisão partiu de si? Mantém que foi a melhor opção?
Não estou nada arrependido. Quando de um lado se percebe que não existe a comunicação e a empatia ideais, o caminho deixa de fazer sentido. Apesar do apoio fantástico dos adeptos e da ligação aos jogadores, senti que não tinha empatia máxima, apoio máximo no trabalho desenvolvido. Numa época em que alcançámos a liderança com margem, reduzimos golos sofridos e registámos pouquíssimas derrotas, senti ausência de respaldo. Depois do jogo com o Paços, senti que não tinha apoio. Preferi saltar e ir para um sítio em que apostassem em mim desde o primeiro momento. Foi uma decisão consciente e assumida por ambas as partes.