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O rock ‘n’ roll de Gattuso que está a surpreender Itália

São seis vitórias nas primeiras sete jornadas e a Lazio é líder da Serie A ex-aequo com o INter. Gennaro Gattuso devolveu competitividade a um histórico italiano através de um futebol intenso e vertical

Lazio-Milan (FOTO: Riccardo Antimiani/EPA)

* Por Eduardo Henriques

A Lazio já foi uma das principais potências do futebol italiano e europeu. Campeã nacional em 1974, sob o comando de Tommaso Maestrelli, a equipa romana viveu o período mais bem-sucedido da sua história entre o final da década de 1990 e o início dos anos 2000, durante a presidência de Sergio Cragnotti.

O empresário, que assumiu o clube em 1992, investiu na contratação de jogadores de renome internacional, como Pavel Nedvěd, Juan Sebastián Verón, Christian Vieri, Hernán Crespo e Siniša Mihajlović.

Os portugueses Fernando Couto e Sérgio Conceição também integraram esta geração, que tinha em Alessandro Nesta, formado no clube, uma das suas principais referências.

Sob a orientação do ex-Benfica Sven-Göran Eriksson, a Lazio conquistou a Taça das Taças e a Supertaça Europeia em 1999, antes de alcançar o segundo Scudetto da sua história, em 2000, numa disputa com a Juventus decidida na última jornada.

Jogadores da Lazio (entre eles Sérgio Conceição e Fernando Couto) celebram a conquista da extinta Taça das Taças em 1999

Contudo, o sucesso desportivo assentava num modelo financeiro difícil de sustentar. A crise do grupo Cirio, conglomerado italiano da indústria alimentar controlado por Cragnotti, agravou as dificuldades económicas do clube, que se viu obrigado a vender algumas das suas principais figuras. O empresário abandonou a presidência em 2003 e, no ano seguinte, Claudio Lotito assumiu o controlo da Lazio, iniciando um período de reorganização financeira.

As dificuldades não terminaram com a mudança de liderança. Em 2006, a Lazio foi envolvida no Calciopoli, escândalo relacionado com a influência exercida sobre o sistema de arbitragem italiano. Inicialmente condenada à descida à Serie B, conseguiu evitar a despromoção após recurso, mas foi penalizada com pontos na classificação de 2005/06 e iniciou a temporada seguinte com uma dedução de três pontos, depois de a sanção inicial de 11 pontos ter sido reduzida. Os laziali ficaram ainda afastados da Taça UEFA.

Nas duas décadas seguintes, a Lazio continuou a conquistar troféus nacionais e a participar nas competições europeias, destacando-se os períodos de Simone Inzaghi e Maurizio Sarri. Ainda assim, nunca voltou a conquistar a Serie A, apesar de ter terminado na segunda posição em 2022/23.

Mais de 25 anos depois do último título nacional, a Lazio volta a alimentar expectativas de lutar pelo Scudetto. No centro desta recuperação está Gennaro Gattuso, um treinador cuja chegada esteve longe de gerar consenso.

Gattuso, o treinador improvável

A chegada de Gattuso à Lazio, em junho deste ano, não gerou grande entusiasmo. Apesar de uma carreira como jogador marcada pela conquista de títulos importantes, o italiano ainda procurava alcançar o mesmo sucesso como treinador.

A contratação surgiu poucos meses depois do fracasso ao serviço da seleção italiana, que falhou o apuramento para o Mundial de 2026 após uma derrota frente à Bósnia e Herzegovina, no desempate por grandes penalidades. O desfecho teve um significado particular para Gattuso que, em outubro de 2025, tinha afirmado, em tom de brincadeira, que iria viver para longe de Itália caso não conseguisse levar a seleção ao Mundial. O antigo médio acabaria por abandonar o cargo em abril, após a terceira ausência consecutiva dos italianos de uma fase final.

O clube vinha de um nono lugar na Serie A, enfrentava limitações financeiras e atravessava um período de contestação dos adeptos à presidência de Claudio Lotito. A situação agravou-se na estreia oficial, quando a equipa foi eliminada da Taça de Itália, em casa, pelo Mantova, da Serie B, por 2-0, e a imprensa italiana chegou a apontar Gattuso como um dos principais candidatos a primeiro treinador despedido da temporada.

A resposta surgiu no campeonato com o melhor arranque da história do clube. Com seis vitórias e um empate nas primeiras sete jornadas, Gattuso está a contrariar as expectativas iniciais, e a vitória por 3-0 frente à Juventus, em Turim, reforçou esta dimensão.

Mais do que uma equipa movida pela personalidade do treinador, a Lazio começa a apresentar uma identidade futebolística própria. É nessa combinação de intensidade, organização e verticalidade que se encontra a base deste inesperado renascimento.

A transformação começou em Formello

O renascimento dos biancocelesti começou no centro de treinos de Formello. Mais do que alterar a organização tática, Gennaro Gattuso apostou no aumento da exigência física, na recuperação de jogadores pouco utilizados e numa relação mais próxima com o plantel.

O treinador revelou que aumentou a duração e a intensidade dos treinos, de forma a preparar a equipa para um futebol mais exigente fisicamente. Reda Belahyane tornou-se um dos exemplos dessa mudança.

O médio, que, segundo o italiano, tinha dificuldades em completar as sessões de trabalho, chegou a pedir desculpa a Gattuso por não conseguir acompanhar o ritmo. A evolução foi reconhecida pelo próprio jogador, que destacou a compreensão e a capacidade do técnico para o motivar.

A transformação também passou pelo próprio treinador. Gattuso admitiu que chegou a ponderar abandonar a carreira devido ao desgaste emocional provocado pela profissão.

As experiências no estrangeiro levaram-no, segundo explicou, a adotar uma postura menos rígida, mantendo algumas regras fundamentais, mas concedendo maior autonomia aos jogadores.

A mudança não se explica apenas pelo que exige aos jogadores, mas também pela forma como passou a relacionar-se com eles.

Calcio em modo rock ‘n’roll

A Lazio de Gattuso apresenta um futebol intenso, vertical e agressivo na recuperação da bola, mas a sua identidade vai além da combatividade habitualmente associada ao treinador italiano. A equipa combina pressão alta, circulação apoiada e movimentos posicionais que procuram criar superioridade em diferentes zonas do terreno.

É um calcio em modo rock ‘n’ roll, mas com organização.

O ponto de partida é o 4-3-3, uma estrutura que se mantém relativamente estável sem bola, mas que sofre alterações significativas durante a construção ofensiva. Quando a Lazio assume a posse, o médio defensivo, habitualmente Reda Belahyane, procura recuar para o espaço entre os centrais, enquanto os laterais avançam.

Esta movimentação permite transformar o 4-3-3 numa estrutura próxima do 3-3-4. Um dos médios interiores permanece numa posição de apoio à circulação, enquanto o outro avança para junto do ponta-de-lança. A equipa aumenta assim o número de jogadores no ataque, sem abdicar de uma estrutura de cobertura defensiva.

A mobilidade é essencial. Davide Frattesi pode aparecer na área como um segundo avançado, Kenneth Taylor aproxima-se para organizar a circulação e Tijjani Noslin recua para arrastar os defesas adversários. Estas movimentações dificultam a definição das marcações e permitem explorar os espaços criados durante a jogada.

Uma das mudanças mais evidentes introduzidas por Gattuso está na pressão defensiva. Os laziali procuram condicionar a construção adversária através da aproximação dos avançados aos defesas e da subida coordenada dos médios. Em determinadas situações, utiliza referências individuais para impedir progressão com facilidade pelo corredor central.

A equipa tenta recuperar a bola o mais perto possível da baliza contrária, reduzindo a distância necessária para chegar a zonas de finalização. Quando a primeira pressão não resulta, os jogadores procuram reorganizar-se rapidamente, fechando os espaços interiores e protegendo a linha defensiva.

Esta abordagem exige elevada concentração e coordenação. Os centrais podem abandonar momentaneamente a sua posição para acompanhar adversários entre linhas, enquanto os médios asseguram as coberturas. Se a pressão for ultrapassada, porém, a Lazio pode ficar exposta a ataques rápidos, sobretudo nas costas dos laterais.

Com bola, a equipa combina circulação curta com mudanças rápidas do centro de jogo. Nuno Tavares oferece profundidade no corredor esquerdo, enquanto Mattia Zaccagni tem liberdade para receber por dentro e participar na construção. À direita, Gustav Isaksen representa uma ameaça pela velocidade, capacidade no 1x1 e pelos movimentos de fora para dentro, que lhe permitem tirar partido do pé esquerdo.

O objetivo passa por atrair a pressão adversária para uma zona e encontrar espaço noutra. Quando identifica uma oportunidade, a Lazio acelera através de passes verticais ou mudanças de corredor, para procurar chegar rapidamente a zonas de finalização.

A vitória por 3-0 em Turim, frente à Juventus, demonstrou a eficácia destes princípios.

O primeiro golo, marcado por Oliver Provstgaard, surgiu de uma jogada de bola parada, após um canto curto. No segundo, Nuno Tavares encontrou Isaksen através de uma mudança de corredor, permitindo ao extremo dinamarquês conduzir para dentro e finalizar de pé esquerdo. O terceiro, apontado por Dele-Bashiru, resultou de uma progressão em contra-ataque iniciada no meio-campo.

Os três golos ilustram que a Lazio não precisa de dominar a posse para controlar os momentos decisivos de um encontro.

O futebol de Gattuso continua a refletir algumas características da sua personalidade competitiva, mas está longe de depender apenas da agressividade. O treinador reconheceu a diferença entre o jogador que foi e o treinador que pretende ser, admitindo que um médio com as suas características poderia não ter lugar nesta Lazio, devido à importância que atribui à qualidade de passe e à interpretação posicional.

O resultado é um futebol de ritmo elevado, movimentos constantes e pressão agressiva, sustentado por princípios coletivos definidos. O rock ‘n’ roll de Gattuso não é sinónimo de desordem, é uma forma de acelerar o jogo sem perder a estrutura necessária para o controlar.

Os números de uma recuperação que permite sonhar, mas com calma

A Lazio apresenta um dos melhores registos da Serie A após sete jornadas. Com 19 pontos em 21 possíveis, 14 golos marcados e apenas quatro sofridos, a equipa mantém-se invicta no campeonato. As quatro vitórias em quatro deslocações reforçam a consistência dos resultados, mas os indicadores estatísticos revelam uma realidade menos dominante.

Segundo os dados da SofaScore, parceiro estatístico do Maisfutebol a Lazio apresenta uma média de 1,45 golos esperados (xG) por encontro, o 13.º registo da Serie A. Apesar de ter marcado 14 golos, a equipa acumulou 10,15 xG, uma diferença que demonstra a eficácia de finalização superior à qualidade estimada das oportunidades claras.

A diferença também é significativa no plano defensivo. A Lazio sofreu quatro golos, quando as oportunidades concedidas aos adversários correspondem a 8,84 golos esperados. O desempenho defensivo, incluindo as intervenções do guarda-redes Christos Mandas, tem contribuído para limitar os golos sofridos. Contudo, a diferença entre os valores reais e esperados levanta dúvidas sobre a possibilidade de manter estes resultados durante toda a temporada.

A vitória por 3-0 frente à Juventus é um exemplo desta tendência. A Lazio marcou três golos a partir de oportunidades avaliadas em apenas 0,57 xG, demonstrando uma capacidade de concretização muito superior à expectativa estatística.

Estes dados não anulam o mérito do trabalho de Gattuso. A eficácia nas duas áreas, a capacidade para gerir vantagens e a adaptação aos diferentes adversários são componentes importantes do rendimento competitivo. Contudo, a distância entre os resultados e os indicadores subjacentes aconselha prudência.

Para se manter na luta pelos primeiros lugares, terá de demonstrar que consegue sustentar essa eficácia ou aumentar a capacidade para criar ocasiões e reduzir as oportunidades concedidas.

Um novo candidato ao Scudetto?

O início de temporada devolveu ao clube uma ambição que parecia distante, a de voltar a disputar o título italiano. Com 19 pontos em sete jornadas, a equipa de Gennaro Gattuso acompanha o Inter no topo da Serie A e apresenta o melhor arranque da sua história.

Uma das principais vantagens está ausência de competições europeias. Ao contrário de vários concorrentes diretos, Gattuso dispõe de semanas completas para preparar os encontros, trabalhar os mecanismos táticos e gerir o desgaste físico. Esta circunstância é especialmente importante num modelo que exige intensidade na pressão, deslocamentos constantes e transições rápidas.

Existem, porém, limitações. A profundidade do plantel é inferior à de alguns adversários e uma sucessão de lesões em jogadores importantes poderá comprometer o equilíbrio coletivo. Além disso, a equipa ainda terá de demonstrar capacidade para ultrapassar adversários que defendam em bloco baixo, reduzindo os espaços para infiltrações no último terço e transições ofensivas.

Os próximos confrontos com Inter, Nápoles e Roma constituirão testes importantes à capacidade de adaptação da Lazio perante diferentes modelos de jogo.

A vitória em Turim demonstrou que a equipa possui argumentos para competir com os principais clubes italianos, mas disputar o Scudetto exige regularidade durante 38 jornadas, capacidade de resposta às adversidades e soluções para vencer mesmo quando o plano habitual não funciona.

Para já, Gattuso conseguiu algo que poucos antecipavam: transformar uma equipa envolvida num contexto de desconfiança numa das protagonistas do campeonato.

Mais de 25 anos depois do último Scudetto, o clube romano reencontrou a possibilidade de sonhar. Resta perceber se o rock ‘n’ roll de Gattuso tem ritmo para durar até maio.

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