Voltar
Natural de Brooklyn, Heather Hardy tem diversos problemas de saúde e é conhecida por "O Calor" pela forma como lutava e se empenha com bravura na vida
Heather Hardy, 44 anos, retirada desde 2024, revelou que sofre de uma lesão cerebral traumática em consequência dos golpes sofridos durante a carreira. O anúncio veio acompanhado do lançamento de uma campanha no GoFundMe - a maior plataforma de financiamento coletivo (crowdfunding) do mundo, focada na arrecadação de dinheiro para causas pessoais, médicas, comemorativas ou de beneficência -, para arrecadar fundos para a própria e a filha, mas também de um processo de 10 milhões de dólares, quase 9 milhões de euros no câmbio atual, à Most Valuable Promotions. Já lá iremos.
"Após anos e anos a levar golpes no desporto que eu amava, sofri uma lesão cerebral traumática. O dano afetou a minha saúde, visão e capacidade de trabalhar com regularidade suficiente para cobrir as despesas básicas", explicou a ex-pugilista.
Nascida em Brooklyn, Nova Iorque, em 1982, Heather Hardy construiu um percurso de destaque nos desportos de combate, sendo conhecida pelo apelido "The Heat" - O Calor, em português, dado estilo de luta agressivo e resiliência implacável dentro do ringue e da jaula. Hardy tornou-se uma pioneira do boxe feminino moderno, tendo conquistado o título mundial de peso-pena da WBO (Organização Mundial de Boxe) , que deteve entre 2018 e 2019. Mas, o referido apelido vem também de outras vidas: reflete a tenacidade fora do desporto, tendo começado a lutar tardiamente, por volta dos 28 anos, enquanto criava a filha sozinha, enfrentava um divórcio difícil e acumulava vários empregos para sobreviver. Essa mentalidade de "trazer o calor" e nunca desistir, mesmo sob extrema pressão, consolidou a identidade como "The Heat".
O ponto alto da carreira ocorreu em outubro de 2018, quando derrotou Shelly Vincent, por decisão unânime, e conquistou o referido título mundial. No combate seguinte (2019), defrontou Amanda Serrano, sendo igualmente derrotada por decisão unânime. Na verdade, entre 2019 e 2023, Hardy lutou apenas cinco vezes, sendo a última uma espécie de desforra contra Serrano, em agosto de 2023. Meses depois, em maio de 2024, anunciou que não continuaria a competir, seguindo recomendações médicas.
O facto é que, agora, Hardy processou em 10 milhões de dólares [cerca de 8 milhões e 792 mil euros] a Most Valuable Promotions (MVP), a promotora sob cujo comando lutou pela última vez contra Serrano. Por esse combate, a pugilista nova-iorquina recebeu o maior cachê da carreira, mas sem que alguma vez se conhecessem os números. A ação judicial apresentada refere-se a alegadas violações da Lei de Reforma Muhammad Ali por negligência.
Em comunicado, a Most Valuable Promotions (MVP) manifestou "respeito por Hardy", mas afirmou não se considerar responsável pelos problemas de saúde que esta possa ter enfrentado. "A participação de Heather no nosso card de 5 de agosto de 2023 foi gerida através do seu promotor, Lou DiBella, que contratou o combate; Heather expressou publicamente gratidão pela oportunidade, tanto antes como depois do combate. A MVP seguiu os protocolos aplicáveis ao combate, Heather recebeu autorização médica da comissão atlética que supervisionava o evento para competir e o combate decorreu sob a autoridade e supervisão da comissão, em conformidade com os seus requisitos padrão de saúde e segurança", explicaram.
Pelo contrário, Hardy afirmou que os organizadores "ignoraram possíveis sinais de alerta sobre o estado de saúde" e garantiram que a luta prosseguisse, aproveitando-se, inclusive, da sua "delicada situação financeira" para a pressionar. A pugilista sustentou que o evento lhe provocou uma "lesão cerebral que acabou com a sua carreira", com repercussões que vão além do percurso desportivo.
As sequelas de saúde que Heather Hardy enfrenta são graves, de natureza neurológica e consideradas permanentes . Os anos de traumatismos cranianos repetidos no ringue resultaram em lesões cerebrais traumáticas (TBI) , danos no lobo frontal e sintomas associados à Encefalopatia Traumática Crónica (CTE). De resto, foi aconselhada por uma junta médica a parar devido a risco de morte.