Voltar
Se há um ano alguém telefonasse a Tiago Fernandes, então treinador do Portimonense na Segunda Liga, para lhe dizer que voltaria a ser treinador interino do Sporting em Londres… O mais provável era que este reagisse com uma gargalhada. Estava no Algarve, os leões tinham e teriam dono, um eventual sucessor seria sempre um nome de peso, novo, para criar um projeto. Mas a verdade é que o improvável cenário acabou mesmo por tornar-se realidade.
Há oito anos, em 2018 e quando estava à frente dos juniores, foi chamado à equipa principal na sequência do despedimento de José Peseiro e antes da contratação de Marcel Keizer. Fez três jogos, duas vitórias no Campeonato contra Santa Clara e Desp. Chaves e um empate contra o Arsenal, em Londres e na fase de grupos da Liga Europa. Esta terça-feira, numa altura em que estava à frente da equipa B, foi novamente chamado à equipa principal na sequência do despedimento de Rui Borges e antes da contratação de Paulo Fonseca. Só terá um jogo no calendário, mas quis o destino que fosse novamente em Londres.
Em Stamford Bridge, a casa emprestada do Shakhtar Donetsk na Liga dos Campeões, o Sporting fazia um autêntico jogo de transição numa semana de absoluta instabilidade: Rui Borges saiu dois dias depois de vencer o Casa Pia em Rio Maior, recusou despedir-se contra os ucranianos e será substituído por Paulo Fonseca, que já deixou o Lyon, é apresentado esta quarta-feira e estreia-se no sábado em Alvalade contra o Moreirense. Pelo meio, porém, era necessário voltar às vitórias na Europa — e Tiago Fernandes não escondia que a grande comparação que podia fazer com 2018 era que, desta vez, já não contava com a ajuda do pai.
“Não sei o que ele diria. Talvez dissesse para aproveitar a oportunidade. Ele ficava sempre feliz quando o Sporting estava bem, independentemente de ser o filho ou não. Nunca colocaria o filho à frente do clube, em qualquer situação. O presidente pediu-me o normal. É algo que tenho de fazer pelo Sporting, sabemos que é normal. Quando cá estamos temos de dar o máximo. Rui Borges? Falámos o normal, ontem. Como colega que sou, agradeceu-me por tudo o que fiz por ele no Sporting e eu agradeci-lhe pelo que fez por mim. É uma pessoa que está muito grata ao clube. Não foi nada de mais, uma conversa entre dois colegas, tudo de forma natural”, atirou o treinador na antecâmara da partida.
Assim, em Londres e ao contrário do que seria de esperar até por ter conduzido apenas um treino, Tiago Fernandes empreendia uma autêntica revolução no onze inicial: Rui Silva voltava à baliza e voltavam também os três centrais, com Eduardo Quaresma, Eduardo Felicíssimo e Gonçalo Inácio. Maxi Araújo e Geny Catamo surgiam nos corredores e Suárez e Ioannidis eram titulares em simultâneo no ataque, sendo que Rodrigo Zalazar já era opção no banco. Do outro lado, num Shakhtar que tinha uma vitória, uma derrota e um empate na Liga dos Campeões, Arda Turan não contava com o lesionado Pedrinho, antigo jogador do Benfica, e tinha Kauã Elias como referência ofensiva.
Numa primeira parte que terminou sem golos e que teve poucas oportunidades, Pedro Henrique teve o primeiro remate, ao atirar de fora de área para Rui Silva encaixar (6′), e o lance acabou por ser um dos poucos em que alguma das duas equipas enquadrou efetivamente um pontapé na baliza contrária. O Shakhtar começou melhor, empurrando o Sporting e beneficiando de muitas faltas na zona do meio-campo devido à dimensão física que colocava nos duelos, e os leões tinham muitas dificuldades para sair a jogar.
À exceção de uma jogada em que Maxi Araújo rematou contra um adversário depois de uma aceleração na direita (9′), o Sporting só criou perigo já depois da meia-hora. Os ucranianos tinham o controlo do meio-campo, eram mais fortes na reação à perda da bola e nas recuperações, saíam por cima em quase todos os duelos e iam causando muitos problemas a uma defesa que ficava indecisa entre controlar a profundidade ou sair para pressionar.
Silas Andersen teve o primeiro remate dos leões em muito tempo, com um pontapé por cima na sequência de um canto (32′), e ia sendo claramente o melhor elemento da equipa — o único que conseguia dar luta nos duelos, que recuperava bolas para transportar o ataque e que encontrava ligações entre o meio-campo e o ataque, já que o Sporting estava demasiado partido no relvado, não tinha jogo interior e abandonava Luis Suárez e Ioannidis e só criava perigo pela direita e através da velocidade de Geny Catamo.
Os ucranianos ainda ficaram perto de abrir o marcador na reta final da primeira parte, com Alisson Santana a aparecer na cara de Rui Silva sem finalizar (38′) e Kauã Elias a atirar para a bancada num lance em que tinha tudo para marcar (42′), mas já nada mudou. Ao intervalo em Londres, o Sporting estava ainda empatado sem golos com o Shakhtar Donetsk e precisava de fazer muito mais se quisesse um resultado diferente.
Nenhum dos treinadores fez alterações ao intervalo e o Sporting podia ter chegado ao golo logo nos instantes iniciais, com Doumbia a desviar ligeiramente ao lado depois de uma arrancada de Suárez pela esquerda (47′). Apesar da entrada assertiva dos leões, o Shakhtar não demorou a recuperar o ascendente e Kauã Elias, ainda dentro do primeiro quarto de hora da segunda parte, voltou a ficar perto de marcar ao rematar na área contra vários adversários depois de um cruzamento de Mendoza (54′).
Antes da hora de jogo, porém, a equipa de Tiago Fernandes demonstrou a eficácia que tinha faltado até ao intervalo. Numa combinação pelo corredor central, Silas Andersen procurou Suárez na área, Pedro Henrique tentou o alívio e Doumbia, de primeira e aproveitando o ressalto, atirou para abrir o marcador (59′). Os leões aproveitaram a onda e ficaram muito perto de aumentar a vantagem em situações consecutivas, com Suárez a cabecear ao lado (62′) e Eduardo Quaresma a obrigar Dmytro Riznyk a uma grande defesa também de cabeça (63′), e Arda Turan reagiu com as entradas de Newerton e Isaque.
Tiago Fernandes mexeu pela primeira vez a 20 minutos do fim e também mudou o desenho, trocando Ioannidis por Rodrigo Zalazar e motivando o regresso do uruguaio depois de quase um mês de ausência por lesão. O Sporting voltou a encostar-se atrás face ao crescimento do Shakhtar, que procurava claramente o empate e ficou perto com um remate por cima de Kauã Elias (72′) e um livre direto de Alisson que Rui Silva defendeu (79′), e cometeu o erro de permitir novamente períodos de enorme asfixia sem posse de bola e sem capacidade para sair a jogar.
Alisson mantinha-se o principal inconformado dos ucranianos e ainda acertou no poste depois de deixar Maxi Araújo nas costas (82′), Tiago Fernandes tentou dar pulmão à equipa ao lançar Iván Fresneda, Salvador Blopa e João Simões e os leões souberam sofrer, com Rui Silva a encaixar ainda um cabeceamento de Newerton nos descontos (90+1′). O Sporting venceu o Shakhtar Donetsk, voltou aos triunfos na Liga dos Campeões no jogo de transição entre Rui Borges e Paulo Fonseca e provou novamente que, venha quem vier, Silas Andersen é mesmo o farol do grupo.