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Uma década antes de Neemias Queta, Betinho Gomes deixou Portugal na rota da NBA. A quatro meses de completar 42 anos, o poste é o atleta mais velho na Liga e prepara a estreia oficial pelo Desportivo da Póvoa. O internacional por Portugal e Cabo Verde encerrou o ciclo de 10 épocas pelo Benfica e prossegue a carreira na Póvoa de Varzim, cidade que sente como casa e que até lhe lembra da Ilha do Fogo, onde nasceu.
Outrora às portas da NBA, em 2007, e distinguido como o melhor jogador da década 2010-20 em Portugal, Betinho recebe o Maisfutebol na fortaleza do Desportivo da Póvoa, onde se prepara a visita ao Esgueira na ronda inaugural do campeonato, neste sábado (21h).
Os poveiros estão de regresso à Liga e apontam aos playoffs, sob tutela do coach, professor e mestre José Ricardo, homem da casa e ao leme desde 2019.
«Ala-arriba!», grita-se na Póvoa. E, agora, fruto da paixão por uma poveira, Betinho inaugurou um novo capítulo.
Do Benfica a Neemias Queta, da NBA à Seleção, de Betinho Gomes a Cristiano Ronaldo – ambos nascidos a 5 de fevereiro de 1985.
Parte II – Betinho e a primeira vez que viu Neemias: «Esse miúdo vai dar cabo dos joelhos»
Parte III – «O Benfica não quis renovar e não guardo rancor, foram 10 anos espetaculares»
Maisfutebol (MF): De onde vem o nome Betinho?
Betinho Gomes (BG): Do meu pai. Chamava-se Roberto, eu sou João Roberto Correia Gomes. O meu pai era chamado de Beto, então eu era o Betinho, o pequenino. Acho que não esperavam que eu crescesse tanto [mais de dois metros]. Honestamente, nunca gostei do nome João, porque é muito comum em Portugal. Queria algo mais africano. Então, optei pelo Betinho.
MF: E o número 15?
BG: Quando era muito novo fui ficando com os números que sobravam. Em Cabo Verde só havia o 11 e foi o meu número durante 5 anos. Quando cheguei a Portugal, no Barreirense, só havia o 15. E ficou.
MF: Como se está a ambientar à Póvoa, depois de tantos anos em Lisboa?
BG: Não tem nada ver com Lisboa, mas está a correr bem, a Póvoa é uma cidade bem mais tranquila. Conheço bem a Póvoa, porque a minha esposa – Sofia Ramalho Gomes – é natural de cá. Desde que nos conhecemos, há 15 anos, que visito a Póvoa algumas semanas. É uma segunda casa, diria.
MF: Há um ano adivinhava este passo na carreira?
BG: Já pensava nisto há vários anos. Sabia que o meu ciclo no Benfica estava a terminar. Gosto de lugares tranquilos, tal como consegui em Itália e Espanha. Estive 10 anos em Lisboa, então decidi que, se não continuasse no Benfica, viria para a Póvoa.
MF: (…)
BG: O fim da carreira nunca passou pela mente. Sinto-me bem fisicamente e gosto de jogar e competir. Muitas pessoas dizem que eu deveria terminar a carreira no Benfica para sair em grande, mas não percebo o que é isso de terminar em grande.
MF: Como cuida do corpo aos 41 anos?
BG: Já não sou o que era há 10 anos. Com esta idade só vemos o Cristiano Ronaldo e o Marcelinho Huertas (43 anos), na primeira divisão de basquetebol de Espanha. Tento ter uma boa alimentação, antes dos treinos preparo o corpo para a agressividade das sessões e sou dos últimos a sair do pavilhão porque vou ao fisioterapeuta, ou faço massagem e alongamentos. São aspetos importantes para a longevidade. Tenho noção de que o meu corpo já não é o mesmo, então procuro adaptar-me. Não salto como antes e não penetro tanto para afundar, então aposto no lançamento exterior. Mentalmente sinto-me capaz de tudo, a cabeça ainda pensa como se tivesse 20 anos, o que permite momentos espetaculares para alguém de 41 anos.
MF: A nível de alimentação é rigoroso?
BG: Vou ser sincero, sempre fui acompanhado por uma nutricionista, mas gosto muito de comer e de ter prazer à mesa. Tento ao máximo que seja uma alimentação saudável, mas adoro a francesinha da Póvoa. Sabemos que é uma bomba calórica. Aconselho os jovens a apostarem no apoio de nutricionistas, porque é importante no quotidiano. Eu ainda presto atenção à minha nutricionista e tento cumprir o plano.
MF: É natural da Ilha do Fogo. Qual a primeira memória ligada ao basquetebol?
BG: Como sabe, Cabo Verde é constituído por 10 ilhas e, quando eu tinha 2 anos, fomos para a Ilha de Santiago, onde ficámos por 10 anos, mas nunca joguei basquetebol. Na escola jogava futebol. Mais tarde viajámos para a Ilha de São Vicente, onde fiz novos amigos, que me incentivaram a jogar basquetebol. Até comecei no voleibol, mas um treinador identificou o meu potencial – já era muito alto e saltava muito. Confesso que não gostei do basquetebol à primeira. Mas os meus amigos viam NBA, então comecei a seguir o Michael Jordan e a admirá-lo. Queria ser igual a ele, até rapei o cabelo às escondidas da minha mãe. Na primeira vez correu mal e fartei-me de sangrar, a minha mãe passou-se!
MF: Em 2023 disputou o Mundial e em 2025 o Afrobasket por Cabo Verde. Certamente foi marcante.
BG: Representei Portugal durante 15 anos, mas nunca deixei de ser cabo-verdiano, sempre tive esse sonho. A FIBA determina que poderia representar outra seleção ao fim de 4 anos de ausência. Então tinha tudo isso em mente. Queria retribuir pelos anos de ausência de Cabo Verde. Mas nada disso apaga o que fiz por Portugal, um país que adoro.
MF: Este verão foi muito especial para Cabo Verde, sobretudo pelo Mundial 2026.
BG: Não tenho o hábito de ver futebol, mas gosto muito de jogar. Ainda assim, e apesar dos horários, apoiei e vibrei com os jogos. O que fizeram foi descomunal. Nas semanas seguintes, tanto em Portugal como em Espanha, as pessoas abordavam-me, festejavam e pediam para tirar fotos só porque eu estava com uma camisola de Cabo Verde. Agora que o país está no mapa, espero que seja possível investir e melhorar o desporto, porque Cabo Verde está longe de ter um sistema estruturado.
MF: Tenciona implementar uma academia em Cabo Verde?
BG: Temos o nosso Campus “Aminga” há 5 anos, organizado por mim, pela minha esposa e pelas minhas irmãs Zina e Bety, com o objetivo de ajudar os jovens e mudar as mentalidades no que toca ao desporto. Quando terminar a carreira de atleta vejo-me como treinador. Até porque tenho vários projetos com a minha esposa, que é treinadora de formação no Desportivo da Póvoa. E eu já a ajudo. São muitos jovens, cerca de 40 por treino. É uma missão que me fascina.
MF: Os vossos filhos também jogam na Póvoa. É o destino deles?
BG: É uma decisão deles. Vou apoiar qualquer decisão. Tanto eu como a minha esposa temos uma longa e forte ligação ao basquetebol, mas os nossos filhos não foram forçados a nada. Vão ter sempre o nosso apoio.
MF: Tanto o Betinho como o Cristiano Ronaldo nasceram a 5 de fevereiro de 1985. Como analisa a “novela” em torno de CR7?
BG: Em primeiro lugar, só me retiro quando o Ronaldo se retirar. Eu tenho uma grande admiração pelo Ronaldo, não pelo dinheiro, mas pelo profissional que é. Não gosto do que está a acontecer. O que realmente aconteceu não é público, mas o Ronaldo deu muito a Portugal. Parece-me que é uma falta de respeito. Não é o mesmo jogador, mas merece outro desfecho. Deveria haver um pedido de desculpas ou algo que permita fechar a história de outra forma. O Ronaldo merece.
MF: É mera coincidência o Ronaldo nascer no mesmo dia que o Betinho?
BG: Foi engraçado! Quando fui para Itália até fui notícia, porque me apelidaram de “Ronaldo do basquetebol” nos jornais. Foi algo que me deixou orgulhoso.
MF: Sente que nasceu com um dom?
BG: Não só para o basquetebol, mas para triunfar naquilo a que me dedico por completo.
MF: Se fecharmos a página do basquetebol, como é o dia a dia?
BG: Sou uma pessoa bastante reservada e de família, então aproveitamos as folgas para passear, descansar, ir ao cinema, estar no parque ou ir à praia, algo impensável em Lisboa.
MF: Mas é um homem do mar poveiro?
BG: Não! A água é muito fria, não dá. Mas em Cabo Verde estamos no mar o dia todo. Eu venho da Ilha do Fogo, tenho lava nas veias.
MF: O que liga a Póvoa à Ilha do Fogo?
BG: A calma. A paz. Estás na rua e estás tranquilo. Não há berros ou buzinas. Nada de stress. Esse é um dos lemas em Cabo Verde. Vou para casa de bicicleta e paro na praia para contemplar as ondas.
MF: A cultura de Cabo Verde rejuvenesce em Portugal à boleia de ícones como Cesária Évora, Dino d’Santiago e o Betinho. E não posso esquecer outros nomes com impacto na lusofonia como Slow J e Papillon. Que palavra resume a carreira do Betinho?
BG: Dedicação. Sou muito dedicado, tal como o Dino, o Papillon e o Slow J. O Dino sofre muitos ataques racistas e, ainda assim, continua dedicado à comunidade. O Dino já foi padrinho do nosso Campus em Cabo Verde e é alguém que admiro. No futuro gostaria de fazer tanta diferença quanto ele. É uma inspiração.
Prossiga para a segunda parte desta conversa.