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Já nem se pode dizer que a situação seja familiar. A situação é a situação, é já um estado quase permanente, um ciclo com nuances e alterações mas sempre o mesmo pano geral, não algo que sofra mutações fundamentais.
A situação é um carrossel, que se move, mas sempre cruzando os mesmos pontos. Ei-los: contratação de um treinador estrangeiro, possivelmente português ou neerlandês, na esperança de encontrar o novo Ferguson, o guia para o futuro, o homem cuja visão conduzirá o clube no longo prazo. Essa aposta falha e chega um técnico da casa, cuja qualidade fundamental é ter sido treinador por Ferguson, uma lenda cujos ex-futebolistas são particularmente conhecidos pelos seus fracassos nos bancos.
É tudo um déjà vu. O ponto, a 1 de novembro de 2026, é o do rutura, de quase passagem de um dos pontos repetidos para outro. O ciclo do discípulo de Ferguson a terminar, um treinador de maior reputação a chegar, a máquina da instabilidade a reiniciar-se, mas vivendo sempre na situação.
Factos: o Manchester United acaba de perder contra o Chelsea. O 2-0 em Londres foi a terceira derrota consecutiva, um período de 10 dias em que o saldo de golos da equipa é de nove sofridos e um marcado. São já nove desafios em triunfos, a pior série do emblema desde 1988/89.
A última vitória do United foi a 10 de setembro, num 4-0 perante o Sabah, na Liga dos Campeões. Já eliminado da Taça da Liga pelo Brighton, o derradeiro e único triunfo no campeonato foi a 30 de agosto, na segunda jornada, com um 5-2 perante o Ipswich.
Os red devils encontram-se num muito modesto 17.º lugar, com os mesmos sete pontos do Crystal Palace, que ocupa o primeiro dos lugares de descida. O penúltimo, o Nottingham Forest, tem seis pontos, ao passo que o Sunderland, o lanterna-vermelha, tem cinco.
O pós-Ferguson trouxe algumas classificações finais na Premier League verdadeiramente embaraçosas, desde logo o 15.º lugar de 2024/25, com Ten Hag e Amorim, mas também o 7.º de 2013/14 ou o 8.º de 2023/24. Será possível fazer ainda pior agora, talvez até temer a descida, tal como sucedeu em 1973/74.
A crise do Manchester United, uma crise permanente, uma crise instalada, uma crise que circula no tal carrossel, tem mais de uma década de vida. O clube mantém-se comercialmente pujante, sendo oitavo no Deloitte Football Money League, com receitas de €793 milhões a darem ao United um estatuto empresial bem superior ao desportivo. Ganhar jogos de futebol é que é mais difícil.
Neste contexto, o passa-culpas vai acontecendo. Na sequência da derrota contra o Como, Bruno Fernandes criticou as escolhas de Michael Carrick, levando resposta do treinador. Lisandro Martínez, por seu turno, apontou o dedo às opções da direção, particularmente à dupla Jason Wilcox, diretor de futebol, e Omar Berrada, CEO.
Carrick chegou depois do despedimento de Ruben Amorim, na já conhecida cartada do pupilo de Ferguson que vem restabelecer a normalidade após as aventuras de um português. Foi assim com Ole Gunnar Solskjaer no pós-Mourinho, repetiu-se com Carrick no pós-Amorim. A situação sempre circular, repetitiva.
Segundo a imprensa inglesa, nomeadamente o The Guardian, o antigo médio manter-se-á no cargo para o próximo encontro, na receção à Roma. Ainda antes da paragem o United vai ser visitado pelo Aston Villa. Após as seleções há o clássico contra o Liverpool, em Anfield, seguindo-se uma visita a Alvalade para a Liga dos Campeões. Quem será o treinador dos ingleses em Lisboa?
Têm sido apontados vários candidatos à sucessão. Eddie Howe, Julian Nagelsmann, Unai Emery ou Antonio Conte são os nomes mais repetidos na comunicação social inglesa, voltando a dar uma volta conhecida ao ciclop. O homem que se seguirá à mais que provável vindoura chicotada psicológica será o nono treinador em 13 anos pós-Ferguson, aos quais se adicionam quatro interinos, todos pupilos de Sir Alex. O ciclo de dor segue para um gigante que já nem parece adormecido. Parece algo pior.