Voltar
Jesús de Miguel, de 30 anos, sofreu um choque com o guarda-redes adversário, Jesús Owono. Foi transportado para o hospital, mas acabou por morrer na manhã seguinte.
Tinha 30 anos. Tinha uma vida. Tinha pessoas que o esperavam em casa. Tinha planos que, como os nossos, provavelmente acreditava que ainda teria tempo para concretizar.
Mas há uma outra dimensão desta história sobre a qual precisamos de falar.
O guarda-redes que protagonizou o lance também saiu daquele campo com uma vida completamente diferente. Entrou para disputar uma bola. Saiu com a possibilidade de ter de conviver para sempre com a morte de outro ser humano na sequência daquele choque.
E é aqui que a psicologia nos obriga a olhar para além das imagens, dos comentários e dos julgamentos.
Porque uma coisa é saber que aconteceu uma tragédia. Outra, muito diferente, é ter sido a pessoa envolvida no momento em que ela aconteceu.
Há experiências que podem ficar gravadas na memória de uma forma particularmente dolorosa. A imagem pode regressar sem aviso. O lance pode repetir-se mentalmente dezenas de vezes. A pessoa pode começar a questionar cada movimento, cada decisão, cada segundo: E se tivesse feito de outra maneira? E se não tivesse saído da baliza? E se tivesse chegado um segundo mais tarde?
A cabeça procura explicações, procura alternativas, procura uma versão dos acontecimentos em que o desfecho pudesse ter sido diferente. É uma tentativa humana de recuperar algum controlo perante algo que parece impossível de aceitar.
E há uma palavra que merece atenção: culpa.
Mesmo quando não existe intenção de magoar, mesmo quando estamos perante um acidente, a pessoa envolvida pode sentir uma culpa devastadora. Pode questionar-se sobre o que aconteceu, sobre o que poderia ter feito e sobre o direito que tem de continuar a sua própria vida quando a de outra pessoa terminou naquele momento.
Não sabemos o que Jesús Owono está a sentir, nem podemos antecipar como irá reagir psicologicamente. Mas sabemos que acontecimentos desta natureza podem ter consequências traumáticas e que ninguém deve ser deixado sozinho a tentar processá-los.
Também precisamos de falar de outra coisa: a violência dos julgamentos.
Nas redes sociais, é muito fácil transformar uma pessoa num rótulo. É fácil apontar o dedo, insultar, condenar e exigir explicações a partir de um ecrã. Mas uma coisa é analisar um lance, outra é transformar uma tragédia numa autorização para destruir psicologicamente alguém.
A justiça deve apurar responsabilidades, se existirem. A psicologia lembra-nos que a humanidade não deve desaparecer nesse processo.
E há ainda os colegas de equipa. Os jogadores que estavam naquele relvado, que assistiram ao choque, que viram os profissionais de saúde tentar salvar um companheiro. Também eles podem precisar de ajuda para lidar com aquilo que testemunharam. Porque assistir à morte, ou à tentativa de salvar alguém, pode deixar marcas profundas, mesmo quando não somos os protagonistas do acontecimento.
Há uma coisa que me impressiona particularmente nesta história: duas pessoas entraram naquele jogo sem imaginar que as suas vidas seriam divididas entre o antes e o depois daquele lance. Uma não voltou para casa. A outra terá de encontrar uma forma de continuar a viver depois do que aconteceu.
E talvez seja esta a parte mais difícil de compreender: nem todas as tragédias têm um vilão. Nem todas as histórias dolorosas precisam de alguém para odiar. E nem todas as consequências podem ser medidas apenas pelo que se vê numa imagem.
Por vezes, a vida muda num segundo. E as pessoas que ficam precisam de muito mais do que opiniões. Precisam de tempo, apoio, humanidade e espaço para conseguir respirar no meio de tudo aquilo que aconteceu.
Porque há jogos que acabam ao apito final.
Mas há acontecimentos que continuam dentro de nós muito depois de o estádio ficar vazio.