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Catorze anos depois, Paulo Fonseca regressa a um grande português e não vai sozinho: com ele carrega as cicatrizes de quem já percebeu que o talento, por si só, não chega.
Ora estas cicatrizes são fundamentais nesta história. Mostram que ele pode não ser um treinador melhor porque envelheceu, mas é seguramente um treinador mais completo porque teve a inteligência de não confundir um fracasso com uma sentença.
Senão, veja-se: chegou ao FC Porto em 2013, depois de uma época extraordinária no Paços, e com ele levou ideias, ambição e talento. Parecia condenado ao sucesso, mas saiu ainda antes do final da época, com a carreira ameaçada por um falhanço que podia ter sido definitivo.
Fez então aquilo que muitos treinadores, por orgulho, seriam incapazes de fazer: regressou ao Paços de Ferreira. Não foi uma rendição. Foi uma reconstrução.
Seguiu-se Braga, onde conquistou a Taça de Portugal após meio século. Depois, o Shakhtar e três títulos ucranianos seguidos. Vieram a Roma e o Lille. Paulo Fonseca voltou a subir, desta vez com uma bagagem que não tinha quando Pinto da Costa lhe entregou o FC Porto.
Até chegar ao Milan. E voltar a falhar.
Já não era um treinador inexperiente, mas nem isso foi suficiente para sobreviver à pressão de um gigante europeu em crise. Voltou, tal como no FC Porto, a não terminar a época.
No entanto, e em vez de deixar que o fracasso o definisse, Paulo Fonseca deu uma resposta novamente reveladora. Viajou para Lyon, onde encontrou um clube histórico cheio de problemas, limitações e incertezas, e um contexto em que era preciso mais do que desenhar um modelo de jogo: era preciso adaptar, gerir e reconstruir.
É precisamente esta capacidade de recomeçar que torna a chegada ao Sporting especialmente interessante.
Porque Paulo Fonseca não é um treinador que tenha passado a carreira a acertar. Pelo contrário: falhou uma e outra vez. Mas não deixou que isso o definisse e aprendeu a continuar depois de falhar. É precisamente esta capacidade de se reinventar, sem ter vergonha de voltar ao princípio, que o qualifica hoje na melhor versão de si mesmo.
Uma espécie de Paulo Fonseca 3.0, que não chegou aqui apesar dos fracassos: chegou aqui também por causa deles.
Não há muito tempo escrevi aqui que Frederico Varandas devia manter a aposta em Rui Borges. Hoje continuo a pensar o mesmo, e não o faço de ânimo leve: acredito honestamente que a estabilidade é o início do sucesso de qualquer treinador.
Rui Borges ganhou a dobradinha, fez a melhor carreira do clube na Champions, até venceu o campeão europeu PSG. Não se pode dizer, portanto, que tenha sido uma aposta errada.
Exatamente por isso, o Sporting não devia deitar fora o tempo que o colocou no trono. Devia, isso sim, reforçar a aposta, dar-lhe mais tempo, esperar que a experiência fizesse o que faz por todos nós, quando não somos um erro: que o tornasse melhor no que faz.
Infelizmente para ele, estava condenado desde que chegou a Alvalade.
O que me traz à memória um sketch da série Ruído, em que uma professora explica os limites do humor. Não se pode brincar com africanos. Com chineses ou asiáticos, já pode, desde que não sejam nepaleses. Este ano, nepaleses deixou de ser permitido.
É uma caricatura certeira de uma sociedade que aprendeu a condenar determinados preconceitos, mas continua perfeitamente à vontade com outros. Rui Borges conhece bem essa sensação.
Nasceu em Mirandela e nunca tentou disfarçá-lo. Não corrigiu o sotaque, não mudou a pose, não arranjou outra pessoa para ser. Chegou ao Sporting como era. E, para alguns, isso bastou para nunca o levarem verdadeiramente a sério.
Foi-se sentido naquela desconfiança que sempre o acompanhou.
Curiosamente, ser de Mirandela nunca foi um defeito para Isaltino Morais. Ou para Jesualdo Ferreira. Se calhar porque foram muito cedo para Lisboa, e perderam parte do sotaque.
Ou então apenas porque sim.
Certo é que ninguém os associa a alheiras. Não se faz músicas para as redes sociais, nem se troça da forma como falam. E atenção: associá-lo a alheiras não teria problema nenhum, se não fosse feito com objetivo de ridicularizar e desvalorizar.
Porque é exatamente disso que se trata.
A verdade é que há uma espécie de preconceito social e geográfico que sobrevive tranquilamente neste nosso país, que gosta de se apresentar como moderno, tolerante e inclusivo. Condenamos a discriminação nas campanhas institucionais, mas continuamos a confundir sotaque com ignorância e simplicidade com incompetência.
Rui Borges viveu-o na pela desde o primeiro dia. Mais do que os próprios erros, que os teve - e vários - foram os erros dos outros que lhe traçaram o destino: condenado por aquilo que ainda falta a muita gente para olhar para ele sem preconceitos.
Sim, que a discriminação e a intolerância não se manifestam apenas pela cor da pele. Às vezes, basta ouvir alguém falar para decidir que não pertence àquele lugar.