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Pelé passou parte da infância em Bauru, no interior paulista, para onde sua família se mudou. Foi ali que começou a jogar futebol com regularidade, muitas vezes utilizando bolas improvisadas, feitas de meias ou outros materiais disponíveis. Seu talento chamou a atenção de Waldemar de Brito, ex-jogador e treinador que o levou para uma avaliação no Santos Futebol Clube.
Em 1956, aos 15 anos, Pelé chegou ao Santos. Sua estreia pela equipe profissional ocorreu em 7 de setembro daquele ano, em uma partida contra o Corinthians de Santo André. O Santos venceu por 7 a 1, e Pelé marcou um dos gols. A partir dali, sua ascensão foi rápida. Em pouco tempo, o jovem atacante passou a ocupar lugar central na equipe, destacando-se pela técnica, pela visão de jogo, pela capacidade de finalização e pela combinação de força física e habilidade.
Em 1958, Pelé teve uma temporada excepcional pelo Santos e conquistou seu primeiro título paulista. Marcou 58 gols no Campeonato Paulista, número que permanece associado a uma das campanhas individuais mais impressionantes da história da competição. Naquele mesmo ano, sua carreira alcançaria uma dimensão internacional com a Copa do Mundo disputada na Suécia.
Pelé foi convocado para a Seleção Brasileira que disputaria a Copa do Mundo de 1958. Ainda adolescente, começou o torneio sem atuar nas duas primeiras partidas, mas ganhou espaço a partir do terceiro jogo, contra a União Soviética. Nas quartas de final, marcou o único gol da vitória brasileira sobre o País de Gales. Na semifinal contra a França, fez três gols na vitória por 5 a 2.
Na decisão contra a Suécia, Pelé marcou duas vezes na vitória brasileira por 5 a 2. O primeiro gol, no qual dominou a bola, superou um marcador com um chapéu e finalizou, tornou-se uma das imagens mais conhecidas daquela Copa. Com apenas 17 anos, Pelé conquistava seu primeiro título mundial e se transformava em uma das principais figuras do futebol internacional.
A vitória também representou um marco para o Brasil. Depois das frustrações de 1950, quando a Seleção perdeu a decisão no Maracanã, e de 1954, quando foi eliminada nas quartas de final, a conquista de 1958 consolidou uma nova geração de jogadores e ajudou a estabelecer o futebol brasileiro como uma potência mundial.
Enquanto Pelé se firmava na Seleção, o Santos também se transformava em uma das equipes mais importantes do futebol mundial. Com um elenco de grande qualidade, o clube conquistou títulos estaduais e nacionais e passou a disputar regularmente as principais competições internacionais.
Em 1962, o Santos conquistou a Copa Libertadores da América pela primeira vez, vencendo o Peñarol na decisão. Na sequência, enfrentou o Benfica, de Portugal, pela Copa Intercontinental. Na partida de ida, disputada no Maracanã, o Santos venceu por 3 a 2. No jogo de volta, em Lisboa, a equipe brasileira venceu por 5 a 2, com três gols de Pelé. O resultado garantiu ao Santos o título mundial interclubes.
No ano seguinte, o clube voltou a conquistar a Libertadores e enfrentou o Milan na decisão da Copa Intercontinental. Pelé atuou apenas no jogo de ida, em Milão, e ficou fora dos dois jogos no Maracanã, a volta e o desempate, por causa de uma lesão. Mesmo sem seu principal jogador nas partidas finais, o Santos venceu os dois confrontos disputados no Brasil e conquistou novamente o título mundial.
A equipe santista também realizou excursões internacionais que contribuíram para ampliar a fama de Pelé. Em diferentes países, o Santos enfrentava clubes locais e atraía grandes públicos. A presença do atacante transformava partidas amistosas em eventos de repercussão internacional, ajudando a projetar o futebol brasileiro muito além das fronteiras nacionais.
Na Copa do Mundo de 1962, disputada no Chile, Pelé marcou um gol na estreia contra o México, mas sofreu uma lesão muscular na partida seguinte, contra a Tchecoslováquia. Sem condições de continuar jogando, ficou fora do restante do torneio. O Brasil, liderado em campo por outros jogadores, conquistou o bicampeonato mundial.
Quatro anos depois, na Copa do Mundo de 1966, disputada na Inglaterra, a Seleção Brasileira foi eliminada ainda na fase de grupos. Pelé foi alvo de marcação dura na estreia contra a Bulgária, saiu machucado e não jogou contra a Hungria. Diante de Portugal, voltou ao time e sofreu novas faltas violentas, sem conseguir impedir a derrota por 3 a 1, resultado que eliminou o Brasil ainda na primeira fase.
A eliminação representou uma das maiores decepções da história da Seleção Brasileira. O Brasil chegava ao torneio como bicampeão mundial e contava com jogadores consagrados, mas não conseguiu avançar. A experiência também reforçou o debate sobre a proteção aos atletas habilidosos diante de marcações violentas e sobre a preparação da equipe para competições internacionais.
Na Copa do Mundo de 1970, disputada no México, Pelé voltou a liderar a Seleção Brasileira em uma campanha histórica. A equipe reunia jogadores como Jairzinho, Tostão, Rivellino, Gérson e Carlos Alberto Torres, formando um conjunto lembrado pela qualidade técnica e pela capacidade ofensiva.
Pelé marcou gols importantes durante o torneio, incluindo o primeiro da vitória por 4 a 1 sobre a Itália na final. Também participou de jogadas que se tornaram emblemáticas, como o passe para o gol de Jairzinho contra a Inglaterra e a assistência para Carlos Alberto Torres fechar o placar na decisão. O Brasil venceu a Itália por 4 a 1 e conquistou o tricampeonato mundial.
Com o título, Pelé se tornou o único jogador a conquistar três Copas do Mundo como atleta. A campanha de 1970 também ficou marcada pela qualidade coletiva da equipe brasileira e pela associação entre o futebol praticado em campo e a imagem do país no exterior.
Em 19 de novembro de 1969, Pelé marcou seu milésimo gol em uma partida contra o Vasco da Gama, no Maracanã, cobrando um pênalti. O feito recebeu enorme atenção da imprensa e entrou para a memória do futebol brasileiro. A contagem total de gols de Pelé varia conforme os critérios utilizados, especialmente pela inclusão ou exclusão de partidas amistosas e jogos não oficiais. Ainda assim, o milésimo gol tornou-se um dos marcos mais conhecidos de sua carreira.
Em 1974, Pelé encerrou sua trajetória pelo Santos, clube no qual havia construído a maior parte de sua carreira profissional. No ano seguinte, assinou com o New York Cosmos, dos Estados Unidos, em um momento em que o futebol buscava ampliar sua presença no mercado esportivo norte-americano.
A passagem pelo Cosmos contribuiu para aumentar a visibilidade do futebol nos Estados Unidos. Pelé atuou ao lado de jogadores internacionais e ajudou a atrair público e atenção da imprensa para a modalidade. Em 1977, conquistou o título da North American Soccer League com o clube e encerrou oficialmente sua carreira profissional em uma partida de despedida disputada em 1º de outubro daquele ano.
A influência de Pelé ultrapassou os limites do esporte. Em um período no qual a televisão ampliava o alcance das imagens e os meios de comunicação internacionais se tornavam cada vez mais importantes, ele se transformou em uma figura reconhecida mundialmente. Sua imagem passou a representar não apenas o futebol brasileiro, mas também a capacidade de um atleta de origem humilde de alcançar projeção internacional.
Pelé também teve atuação na vida pública. Entre 1995 e 1998, ocupou o cargo de ministro extraordinário dos Esportes no governo de Fernando Henrique Cardoso. Durante esse período, esteve associado à discussão de mudanças na legislação esportiva brasileira, entre elas a lei que ficou conhecida como Lei Pelé, sancionada em 1998 e voltada, entre outros pontos, à regulamentação das relações entre atletas e clubes.
Sua trajetória, contudo, também deve ser compreendida no contexto social e político do Brasil do século XX. Homem negro que alcançou fama internacional em um país marcado pela desigualdade racial, Pelé tornou-se uma referência de reconhecimento e mobilidade social. Sua posição pública e suas declarações sobre racismo e desigualdade também foram objeto de debates e críticas ao longo de sua vida.
Pelé morreu em 29 de dezembro de 2022, aos 82 anos, em São Paulo. Sua morte provocou homenagens de atletas, clubes, entidades esportivas e chefes de Estado de diferentes países. A repercussão mundial confirmou a dimensão histórica de sua trajetória.
O menino nascido em Três Corações tornou-se o único jogador a conquistar três Copas do Mundo e um dos nomes mais reconhecidos da história do esporte. Sua carreira permanece ligada a momentos decisivos do futebol brasileiro e à transformação do jogo em um fenômeno global.