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O futebol americano é conhecido pela rispidez dos tackles e virilidade das partidas, mas é o perigo invisível dentro do capacete dos jogadores que tem assustado cada vez mais a liga. Um estudo feito por cientistas dos Estados Unidos indica que três em cada quatro jogadores da NFL que morreram entre 2008 e 2023 tinham doença degenerativa no cérebro.
A pesquisa, conduzida pela Universidade de Boston, pelo Mass General Brigham e pela Concussion & CTE Foundation, analisou o caso de 2.362 jogadores, incluindo 396 atletas que doaram os cérebros para estudo. Os cientistas estimam que 75% dos jogadores tinham Encefalopatia Traumática Crônica (ETC), uma doença degenerativa que é causada por traumatismos cranianos de repetição.
O estudo, publicado na respeitada revista médica JAMA Network Open, indica que 94% dos 396 cérebros avaliados pelos pesquisadores apresentavam sinais de ETC. Embora a amostragem possa estar contaminada, já que a maioria destes doadores teve sintomas da doença antes de morrer, os cientistas defendem que a incidência de ETC permanece alta.
“Mesmo levando em conta as diferenças na doação de cérebros, nossos resultados sugerem que a prevalência de CTE entre jogadores da NFL já falecidos permanece alta.”
Os mesmos pesquisadores divulgaram em agosto que um em cada quatro jogadores da NFL que morreram entre 2016 e 2021 tinham CTE. A luta dos cientistas, agora, é conseguir identificar a doença em vida e antes de sintomas graves, como mudança de humor, perda de memória e coordenação motora, entre outros.
A NFL, por sua vez, declarou que continua trabalhando para tornar o futebol americano mais seguro, incluindo mecanismos para tentar reduzir o número de concussões — traumatismo cranioencefálico causado pela aceleração e desaceleração do cérebro, que o faz chocar-se contra a parte interna do crânio.
No início dos anos 2000, a liga foi confrontada com as alegações de que o futebol americano estava causando a morte prematura de ex-atletas. A preocupação da NFL com os problemas de concussão é recente e retratada no filme Concussion (no Brasil, Um Homem Entre Gigantes), estrelado por Will Smith.
O astro de Hollywood interpreta o médico-legista nigeriano Bennet Omalu, que, em 2002, ao realizar a autópsia do ex-astro da NFL Mike Webster — que havia se matado —, descobre diversas lesões cerebrais.
Nos anos seguintes, Omalu percebeu que outros ex-jogadores haviam se suicidado e experimentavam problemas similares: confusão mental, paranoia, agressividade, zumbidos e perda de memória.
O médico nigeriano tentou alertar a NFL, que, em um primeiro momento, rejeitou a alegação de que a prática do futebol americano estava ligada aos suicídios. Porém, a morte do presidente da NFLPA (Associação de Jogadores da National Football League) em condições parecidas fez com que este estudo fosse levado mais a sério.
Atualmente, um jogador com sintomas de concussão é retirado de campo, avaliado por um médico independente — que não tem ligação com o time ou com a NFL — e, se diagnosticado com a lesão, tem retorno proibido para a partida. Nos dias seguintes ao jogo, o atleta deve permanecer em repouso e é avaliado diversas vezes. Normalmente, retorna às atividades em duas semanas.
Uma concussão isolada ao longo da carreira não oferece perigo ao jogador. Porém, a reincidência da lesão, especialmente em intervalos curtos, pode levar a danos permanentes no cérebro.
A cartada mais recente da NFL para a prevenção de concussões é curiosa, porém aparenta ser eficaz. Os guardian caps (bonés guardiões, em tradução livre) são uma espécie de capacete para o capacete. O objeto consiste em uma capa com almofadas colocada sobre o casco do capacete.
De acordo com a liga, se dois jogadores se chocarem utilizando guardian caps, a redução da força do impacto é de cerca de 20% em relação aos atletas que usam apenas o capacete tradicional.