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O futebol é um canhão social, caixa capaz de reverberar numa sociedade apaixonada por ele e pelos clubes que seguem. Por isso, ainda me chocam manifestações egoístas e com o olhar no umbigo como as dadas pelos representantes do Flamengo e do Fluminense na audiência pública sobre as bets no STF.
O Flamengo, na verdade, já não me surpreende. A novidade é a adesão do sócio no Maracanã. Um dirigente usar como argumento a demissão de funcionários nos clubes para defender a volta do dinheiro das bets, citando comparação de dramas, me revira o estômago. É uma chantagem barata.
O presidente do Fluminense, Matheus Montenegro, se esquece da razão primeira da existência de agremiações como a sua, que é de ser agente social.
O Flamengo citou as dificuldades trazidas pela perda de um patrocínio vultoso como o que havia acertado com uma bet e foi na mesma linha, alertando para o risco de emprego para os 1,2 mil funcionários caso a proibição das bets seja mantida. Pouco importa que milhares de famílias sejam impactadas pela volta das apostas ou que os custos do serviço público de saúde saltem com o tratamento contra a ludopatia.
É evidente que trabalhadores perderem o emprego é um drama e precisa também do olhar de todos. Mas fica uma dica aos dirigentes: quem sabe ajustem as contas, puxem o freio em contratações e salários de padrão europeu e voltem a uma realidade mais próxima dos trópicos.
O futebol existia antes das bets e entrou em um mundo paralelo com elas.
Não é justo que, para pagar essa conta, se abra a porta da casa de famílias para que se coloque em jogo a vida delas. Para mim, um dado trazido a público basta para que essa discussão fique clara e mostre o lado a ser seguido: segundo a Associação Brasileira de Supermercados, o fim das apostas repercutiu no aumento da venda de óleo de cozinha, arroz, macarrão e café. Precisa ser mais claro?