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O recado de Abel Ferreira voltou como provocação, o Maracanã ficou pelo caminho e o Verdão ganhou mais um motivo para sorrir. No futebol, quem ri por último nem sempre esquece o print.
Em época de redes sociais, qualquer deslize pode comprometer. E admita: essa semifinal já tinha um cheirinho de Maracanazo, não é mesmo?
A história começou muito antes de a bola rolar. Depois de um empate com o Botafogo e da perda da liderança do Brasileirão, Abel Ferreira pediu que os palmeirenses aproveitassem e desfrutassem das conquistas recentes do clube. A fala não caiu bem para uma parte da torcida, que cobrava melhores resultados e um futebol mais convincente. O treinador virou assunto, foi criticado e acabou transformado em piada nas redes sociais do Flamengo.
O clube carioca aproveitou a ocasião para publicar o famoso “Desfrutem” depois de uma vitória na Libertadores. Naquele momento, o Flamengo estava embalado, liderava o Campeonato Brasileiro e parecia ter motivos de sobra para provocar o rival.
Parecia.
Porque o futebol é implacável. E, quando a gente acha que já escreveu o final da história, ele vai lá e muda o roteiro.
O Flamengo chegou à semifinal da Libertadores com o Maracanã lotado, a torcida empurrando e a expectativa de chegar a mais uma decisão continental. Do outro lado, o Estudiantes tinha um plano: competir, resistir e aproveitar a oportunidade.
O tempo normal terminou sem gols. O Flamengo teve praticamente todo o segundo tempo com um jogador a mais, mas não conseguiu furar a defesa argentina. Na disputa de pênaltis, Muslera brilhou, o Rubro-Negro desperdiçou cobranças e a vaga na final escapou diante de sua própria torcida.
E foi aí que os ventos de Montevidéu começaram a soprar.
O Palmeiras não precisou entrar em campo para participar da festa. Bastou esperar. O social media alviverde tinha a memória em dia e o print guardado. Quando a eliminação foi confirmada, veio a resposta: “Desfrutem”.
Simples. Direto. Sem precisar escrever um tratado sobre rivalidade. Às vezes, uma palavra vale mais do que mil provocações.
E não parou por aí. O clube também publicou uma previsão do tempo para quem vai à final, com ventos de 21 km/h:
Uma alusão à decisão de 2021, em Montevidéu, quando palmeirenses e flamenguistas disputaram a Libertadores e a conversa sobre o vento virou uma das lembranças usadas na rivalidade entre as torcidas.
O recado estava dado. A previsão apontava vento, mas a tempestade mesmo foi nas redes sociais.
Há uma lição importante para quem vive de provocar na internet: comemore, faça a festa, tire onda. Faz parte. O futebol também é isso. Mas nunca subestime a capacidade de o adversário guardar uma publicação para usar no momento certo.
O Flamengo estava em alta quando resolveu brincar com o “Desfrutem” de Abel. A provocação parecia inofensiva, quase uma celebração antecipada de quem acreditava estar no caminho certo. Só que a Libertadores não se ganha com postagem, engajamento ou confiança nas redes sociais.
Ganha-se em campo.
E o Estudiantes fez o que precisava fazer. Não marcou no Maracanã, é verdade, mas também não sofreu gol. Levou a decisão para os pênaltis e mostrou que, em mata-mata, sobreviver ao roteiro adversário pode ser tão importante quanto impor o próprio jogo.
O Flamengo ficou pelo caminho. O Palmeiras, que já havia eliminado o Fluminense em uma disputa dramática, garantiu seu lugar na final. De repente, aquela palavra que serviu de provocação ao rival voltou para casa com endereço certo.
Desfrutem!
Agora, vamos falar de futebol — porque a zoeira é boa, mas a bola também merece entrar na conversa.
Depois da classificação do Palmeiras sobre o Fluminense, o jornalista e comentarista Mauro Cezar Pereira criticou a equipe de Abel Ferreira e a definiu como um time rico de futebol pobre, em referência à estratégia adotada no confronto. A discussão sobre o estilo de jogo palmeirense é legítima. O Verdão não fez duas partidas perfeitas, sofreu, perdeu o jogo de volta e precisou dos pênaltis para chegar à final.
Mas fica a pergunta: e o Flamengo?
Um elenco caro, recheado de jogadores badalados, teve dificuldades para marcar contra o Estudiantes e não conseguiu fazer um gol sequer no jogo de volta, mesmo com superioridade numérica durante praticamente todo o segundo tempo. Na hora dos pênaltis, a conta ficou ainda mais amarga.
Será que o debate sobre futebol pobre vale para todos ou só quando o resultado não agrada?
O Estudiantes não tem o mesmo poder econômico do Flamengo. A diferença entre os investimentos dos clubes é enorme, embora os números exatos de folhas salariais dependam dos critérios e das fontes utilizadas. E, ainda assim, foi a equipe argentina que saiu do Maracanã com a classificação.
O contraste fica ainda mais interessante quando lembramos da Copa do Brasil. Em maio, o Flamengo também foi eliminado pelo Vitória, depois de perder por 2 a 0 no Barradão. O clube baiano tem uma estrutura financeira muito menor, mas encontrou o caminho para tirar o Rubro-Negro da competição.
Não se trata de dizer que dinheiro não importa. Importa, e muito. Elencos caros oferecem mais alternativas e ajudam a sustentar projetos competitivos. Mas dinheiro não entra em campo sozinho, não transforma posse de bola em gol e não converte pênalti.
O futebol tem dessas coisas: às vezes, o investimento compra talento, mas não compra a classificação.
E o Palmeiras? Bem, o Palmeiras segue vivo nas três competições que disputa.
A equipe de Abel Ferreira está na final da Libertadores, continua na briga pelo Campeonato Brasileiro e permanece na disputa da Copa do Brasil. Isso não significa que o Verdão esteja jogando sempre bem, que não tenha defeitos ou que as críticas ao treinador devam ser proibidas. Significa que, quando a temporada entra na reta decisiva, o Palmeiras continua tendo objetivos reais para perseguir.
Abel foi questionado quando pediu que a torcida desfrutasse. Parte dos palmeirenses queria mais do que lembranças de títulos passados: queria desempenho, resultado e uma equipe capaz de convencer dentro de campo. A cobrança faz parte de um clube grande.
Mas o português também conhece o caminho até as decisões. Pode errar, pode escolher uma estratégia que não agrada, pode ver seu time jogar mal. Ainda assim, construiu uma equipe que continua competindo e que encontrou forças para superar duas semifinais de Libertadores decididas nos pênaltis.
Contra o Fluminense, o Palmeiras sentiu a pressão, perdeu no tempo normal e precisou de Carlos Miguel e dos cobradores para avançar. Contra a LDU, também encontrou dificuldades e sobreviveu. Não é invencibilidade. É capacidade de continuar de pé quando a situação aperta.
E, no futebol de mata-mata, isso vale muito.
O Flamengo tinha o Maracanã lotado. Tinha um elenco caro, uma torcida confiante e a chance de chegar à final. Tinha também o “Desfrutem” guardado para provocar Abel Ferreira e os palmeirenses.
Agora, tem uma eliminação para explicar e o Campeonato Brasileiro como principal objetivo restante na temporada.
O Palmeiras tem uma final de Libertadores pela frente, segue na briga pelo Brasileirão e continua vivo na Copa do Brasil. Não ganhou nada com a eliminação do rival, é verdade. A vaga na decisão foi conquistada antes, contra o Fluminense. Mas ganhou o direito de devolver a provocação com aquele sorriso de quem não esquece.
E o melhor é que nem precisou inventar uma frase nova. O próprio Flamengo deixou a legenda pronta.
No fim, a internet tem memória, o futebol tem suas ironias e o print não envelhece.
Portanto, meus amigos palmeirenses, nada de perder tempo tentando explicar demais. A final está chegando, Montevidéu nos espera e ainda há muito em jogo.
Ao rival, fica a lembrança.
A nós, a oportunidade.
Desfrutem!
Avanti, Palestra!