Voltar
Chegar ao mais alto nível de rendimento no mundo esportivo quase sempre é sinônimo de privações na vida pessoal. Dentro dos esportes de combate, não é diferente. Mas não é tão comum no ramo presenciar lutadores abrirem o jogo sobre suas respectivas trajetórias de forma direta, sem filtros. Melquizael Costa rompeu com essa tendência e relembrou um passado não tão saudoso. Diagnosticado com vitiligo ainda na infância, o lutador brasileiro do UFC desabafou sobre o preconceito que ele e sua família enfrentaram por conta da condição.
Em recente participação no canal 'Direto de Vegas', projeto da Ag Fight em formato de podcast, 'Melk', como é conhecido, relatou que, à época, o vitiligo - condição dermatológica crônica caracterizada pela perda gradativa da coloração da pele - era enxergado como um tabu e pouco avaliado, até mesmo pelos médicos. Com a falta de informação difundida na sociedade, a margem para preconceitos e exclusão era grande, conforme o próprio lutador do UFC experienciou enquanto criança.
"Quase não existia pessoa com vitiligo. Tanto que quando eu tive, tive vitiligo com 4 anos de idade, cheguei no médico e ele falou que nunca tinha visto aquilo: uma criança com vitiligo. Ele disse que vitiligo dava em adolescente, mas principalmente em adultos. Em criança ele nunca tinha visto, era um caso raro. E a informação sobre, na medicina, era pouca. E eu sofri para caramba. Mas quem sofreu mais foi a minha mãe. Eu tinha umas pintinhas na mão, aqui (no rosto). Era morenão. Sou negro. Estava brincando com o amiguinho, aí chegava o pai (dele) e puxava o moleque de perto de mim e falavam: 'Sai de perto desse moleque, que ele está cheio de pereba'. Na época não me atingia, mas hoje eu lembro", relembrou o lutador paraense.
Além de sofrer diretamente com a exclusão e preconceito, Melk também tinha que lidar com a tristeza e frustração dos próprios pais com a situação. O fator que 'virou a chave' na mentalidade do então jovem foi o primeiro contato com as artes marciais. Foi no esporte que o hoje atleta do Ultimate se encontrou e, acima de tudo, se aceitou como um indivíduo como qualquer outro. Apesar de ter atingido tal maturidade, o lutador da equipe 'Chute Boxe João Emílio' admite que seu pai guardava remorso e se culpava por sua condição até pouco tempo.
"Eu via a minha mãe com aquele olhar triste. Não, nunca conversei (com ela sobre isso). Mas meu pai, um dia desses, para mim foi até algo besta, mas acho que foi até libertador para ele. Com 14 anos eu comecei a treinar e foi quando eu vi que sou um cara normal, não sou doente. E nunca mais usei remédio nenhum. E foi por agora que eu descobri que meu pai sentia por isso. Porque um dia desses o meu pai falou assim: 'Meu filho, a única coisa que não realizei ainda e que me dói muito é não ter te curado, essas manchas aí'. Aí respondi: 'Tá falando o que, velho? Sou um cara curado há muitos anos'", relatou 'Melk'.
Se no passado o diagnóstico de vitiligo causou muita dor em Melk e sua família, hoje o lutador do UFC abraça sua condição com orgulho. E prova disso é que, em 2025, o brasileiro trocou seu apelido no ramo dos esportes de combate para 'Dalmatian' (dálmata, em português). Com a nova 'marca', Costa conseguiu transformar um tema que antes lhe trazia lembranças repletas de preconceito em sinônimo de representatividade na principal liga de MMA do mundo.