Voltar
Três empresas chinesas romperam contratos com o jogador após comentário sobre meme; polêmica chegou ao governo e afetou transmissões de futebol na TV estatal
O jogador francês Kylian Mbappé perdeu contratos de publicidade com três marcas chinesas e precisou pedir desculpas ao povo da China após uma entrevista sobre um meme provocar uma crise de imagem no país.
As empresas Dongpeng, Mengniu e Milkground anunciaram o fim de suas parcerias com o atacante do Real Madrid após a divulgação de um vídeo em que ele comenta, em tom de brincadeira, um meme que mostra seu rosto sobreposto ao de Mao Tsé-Tung. Sem identificar o líder chinês pelo nome, Mbappé disse achar que se tratava de um ditador e que considerava a montagem muito engraçada.
A fala, gravada meses atrás e divulgada nesta semana, causou reação imediata na China. Além de perder os patrocínios, o jogador virou assunto até no Ministério das Relações Exteriores chinês, que comentou publicamente a controvérsia.
A crise respingou também na LaLiga, campeonato espanhol pelo qual Mbappé joga, que teve suas transmissões suspensas pela televisão estatal chinesa.
Um dos jogadores mais populares do mundo, Mbappé é frequentemente chamado de “ditador” por exercer um suposto papel de influência nos bastidores dos times europeus pelos quais joga.
O apelido ganhou força em 2022, após a renovação de seu contrato com o Paris Saint-Germain, e as montagens continuaram circulando durante a Copa do Mundo, com referências a vários líderes autoritários.
Uma música em francês chamando-o de ditador, divulgada junto a uma montagem do rosto dele em um uniforme militar que parece ter sido inspirado no de Mobutu Sese Seko, que governou o antigo Zaire, foi uma das que se espalhou nas redes sociais.
No embalo dessa história, o programa francês The Bridge perguntou ao atacante do Real Madrid qual era o seu meme preferido. Em uma conversa descontraída, gravada nos bastidores de uma entrevista realizada no início deste ano, ele menciona um homem que acredita ser um “ditador chinês”, sem citar o nome de Mao Tsé-Tung.
“Era um vídeo que alguém fez com um cara… Acho que era um ditador chinês.”
Na sequência, aparece uma montagem com o rosto de Mbappé sobre a imagem de Mao. O jogador diz que achou a brincadeira muito engraçada e que costumava compartilhá-la com amigos.
O trecho circulou nas redes sociais na segunda-feira (26) e provocou uma onda de críticas na China. No dia seguinte, o jogador já havia perdido patrocínios e precisou se desculpar publicamente.
姆巴佩称毛泽东为“中国独裁者”
原视频+中英翻译 https://t.co/A99iyoue0D— Camille Ça (@asdf15644222) October 26, 2026
Fóruns sobre futebol publicaram imagens da entrevista, sem reproduzir exatamente o que o francês falou, por considerarem a declaração ofensiva demais a Mao.
A primeira empresa a anunciar o rompimento foi a Dongpeng, uma das maiores fabricantes de bebidas da China, que utilizou imagens de Mbappé em embalagens e campanhas publicitárias durante a Copa do Mundo de 2026.
A marca chegou a veicular anúncios produzidos com inteligência artificial, mostrando o jogador consumindo sua bebida esportiva.
“Nossa empresa se opõe firmemente e adota uma política de tolerância zero em relação a qualquer comportamento que ofenda os sentimentos nacionais.”
Em seguida, outras duas empresas também anunciaram o rompimento dos contratos: a Mengniu, maior produtora de laticínios do país, e a Milkground, fabricante de queijos. As três divulgaram comunicados semelhantes, condenando declarações ou comportamentos que ofendam os sentimentos do povo chinês.
Para além dos contratos comerciais, a situação com Mbappé e a China chegou ao Ministério das Relações Exteriores do país.
Durante uma coletiva de imprensa na terça-feira (27), o porta-voz Guo Jiakun foi questionado por um jornalista da agência AFP sobre os contratos perdidos por Mbappé.
“Tomamos conhecimento das reportagens. Quaisquer palavras ou ações que firam os sentimentos do povo chinês naturalmente encontrarão rejeição em todos os setores da sociedade chinesa”, respondeu, sem mencionar o jogador pelo nome.
O jornal estatal Global Times também criticou o jogador. Já a China Media Group, responsável pela emissora estatal CCTV, suspendeu as transmissões de partidas da LaLiga e retirou anúncios relacionados a Mbappé.
A medida foi anunciada antes dos pedidos de desculpas do jogador e da liga espanhola.
Em uma declaração divulgada na terça-feira (27), em francês, inglês e chinês, Mbappé reconheceu que seu comentário foi infeliz e disse que havia magoado pessoas na China e em comunidades chinesas de outros países.
“Meu comentário foi infeliz e agora entendo que magoou muitas pessoas na China e nas comunidades chinesas ao redor do mundo. Peço desculpas a todos que se sentiram ofendidos pelas minhas palavras.”
O jogador acrescentou que não tinha a intenção de ofender e afirmou ter profundo respeito pelo povo chinês e por sua história.
O pedido de desculpas foi publicado em suas redes sociais. Mas a postagem acabou gerando mais uma onda de visibilidade negativa, com críticas ao pedido de desculpas. Mbappé é um dos jogadores de futebol mais seguidos do Instagram, com cerca de 137 milhões de seguidores.
https://t.co/MQBo9NCSy5
— Kylian Mbappé (@KMbappe) October 27, 2026
A polêmica coincidiu com a cerimônia da Bola de Ouro, realizada na segunda-feira (26), em Londres, na qual Mbappé ficou em segundo lugar, atrás do inglês Harry Kane.
A LaLiga, também afetada pela controvérsia, afirmou que “lamenta profundamente as ofensas” causadas pelo jogador e ressaltou que as declarações foram feitas em caráter pessoal, sem representar a organização.
O presidente da liga espanhola, Javier Tebas, chegou a se reunir com o embaixador chinês na Espanha para discutir a crise. A entidade anunciou que trabalhará com seus parceiros na China e adotará medidas de conscientização cultural para evitar novos episódios.
Em setembro, talvez já alertado sobre o risco da associação de sua imagem com temas controvertidos, Mbappé havia comentado as montagens que o retratam como ditadores.
Em entrevista à revista France Football, reproduzida pelo L’Équipe, afirmou que algumas são engraçadas, mas outras demonstram falta de consciência política e humana, considerando o sofrimento causado pelos personagens históricos retratados.
Mao Tsé-Tung liderou a revolução comunista que resultou na fundação da República Popular da China, em 1949, após muitos anos de guerra civil.
Tratar o líder como um ditador dentro do país é um assunto politicamente sensível, e a reverência a Mao é constante na cultura oficial chinesa. Além de um mausoléu na Praça da Paz Celestial, em Pequim, o país realiza homenagens em datas relacionadas à sua vida.