Voltar
Adenor Leonardo Bachi, o Tite, foi o segundo treinador brasileiro a comandar a Seleção em duas copas seguidas, mesmo tendo fracassado na primeira. Um privilégio dado antes apenas a Telê Santana. Ambos chegaram a serem considerados exemplos de cidadania, brasileiros a serem imitados, elogiados por políticos. Em 2018, era impossível ir ao cinema sem ser bombardeado por propagandas estrelados por Tite. Eram platitudes como “Enquanto tiver tempo, não vou desistir” e “Aqui, não existe zona de conforto”.
Após a saída da seleção, cada um teve seu caminho, diferentes entre si. Telê foi exaltado mundialmente como um guardião do “jogo bonito”, do verdadeiro futebol brasileiro e o time de 1982 virou culto, tema de estudo. Tite ficou marcado como o homem do e-qui-lí-brio, assim mesmo, com sílabas bem marcadas. O treinador que não conseguiu fazer a seleção jogar bem. Se Telê levou Zico machucado para 1986, Tite fez o mesmo com Fred. Pura teimosia.
A carreira de Telê partiu para a redenção. Ele foi bicampeão mundial com o São Paulo em 1992 e 1993, um time que poderia encarar, sem medo e com mais brilho, os campeões mundiais de 94. Tite, que já era campeão do mundo, com o título do Corinthians em 2012, em vez de redenção, teve é danação.
A primeira grande decepção foi o convite que não veio. Tite deixou a seleção em dezembro de 2022 e se preparou para um contato europeu. Houve rumores de times italianos, mas nada se concretizou. Sem Europa, restava o Brasil. E o Flamengo, por sua torcida e por seu dinheir0, pode ser considerado (com margem a erro, claro), como o maior clube do Brasil. Convite feito, convite aceito. Ele, que havia dito que não treinaria um time brasileiro em 2023, estava de volta.
Ele chegou com uma comissão técnica bem vasta: três auxiliares, um preparador físico – Fábio Masheradjian – e um analista – Lucas Oliveira. Os auxiliares eram Cleber Xavier, Matheus Bachi, seu filho, e César Sampaio, todos egressos da campanha de 2022.
Os números foram enganosos. Ele dirigiu o Flamengo por 70 vezes, com 42 vitórias, 12 empates e 16 derrotas, com ótimo aproveitamento de 65,7%. Levou o time ao quarto lugar do Brasileiro e, em 2024, foi campeão carioca invicto. Sofreu gols apenas quando escalou o time sub-20 porque o principal estava participando de amistosos no EUA.
Mas havia uma Libertadores no meio do caminho. O Santo Graal. E ele foi eliminado pelo Peñarol, de orçamento infinitas vezes inferior. Foi demitido, claro, em setembro d 2024.
Ficou afastado por um tempo. Em abril de 2025, estava acertado com o Corinthians, mas sofreu uma crise de ansiedade e resolveu não aceitar. Tomou a difícil e elogiável decisão de cuidar da saúde mental, algo que havia feito a ginasta Simone Biles, no ano anterior. Quatro dias depois, seus auxiliares Cleber Xavier, Matheus Bachi e César Sampaio assumiram o Santos. Foram muito mal, demitidos em agosto, após 15 jogos, cinco vitórias, quatro empates e seis derrotas.
No final de 2025, em novembro, Tite anunciou que estava recuperado e pronto para voltar a trabalhar. Vejam a diferença: ele, que ficou parado em 2023, esperando um convite europeu, agora precisava anunciar que estava de volta à pista. Três semanas depois, assinou com o Cruzeiro, levando consigo Matheus Bachi, Vinicius Bergantin e Fábio Masheradjian, Menos gente que no Flamengo.
Foi campeão mineiro, vencendo o Galo, mas uma vez mais – como no Flamengo – um título estadual foi insuficiente para mantê-lo no cargo. Saiu na sexta rodada do Brasileiro, após três empates e três derrotas, em 15 de março.
Em setembro de 2026, assumiu o Botafogo, prometendo “uma equipe equilibrada, que saiba fazer transição, com posse ou em velocidade”. O time tinha 35 pontos e estava em 12º lugar, seis à frente do Vasco, primeiro da zona do rebaixamento. Seis rodadas depois – após uma vitória, um empate e quatro derrotas – a situação piorou muito. O time está ainda em 12º, mas a vantagem para o Corinthians, primeiro no Z-4, é de apenas três pontos.
Tite reconheceu que o time está em situação de alerta. E, desta vez não há título estadual para mascarar o mau trabalho. Terminado o Brasileiro, se não for demitido, talvez fosse bom Tite dar uma parada para se reciclar. O Botafogo esperava mais, muito mais, que aproveitamento de 22%.
Fórum tem 25 anos, é o veículo mais antigo da mídia progressista. Sempre do mesmo lado. Nos momentos mais difíceis você e o campo popular sempre puderam contar com a Fórum. Agora precisamos de você. Neste período eleitoral as publicidades diminuem e os custos aumentam. Inclusive com processos judiciais. Se você doar ou assinar a Fórum você nos ajuda a passar esse momento turbulento e lutar pela democracia nesta hora decisiva de nossa história. Contamos muito com você. Pode contar com a gente!
Quer fortalecer o jornalismo da Fórum?