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Há pouca coisa pior no futebol do que ser rebaixado. A tragédia maior. O fim a ser evitado. O trauma indelével.
Ontem (3), na audiência do Supremo Tribunal Federal sobre a Medida Provisória que proibiu as bets, descobrimos que não há só uma forma de rebaixamento para os clubes brasileiros.
Cair de divisão é da vida. Tem dia que é de noite e até times decentes encontram o fantasma do descenso. Cair como alguns escolheram cair nesta terça-feira não é da vida. Não se justifica. Não se explica. Talvez não tenha volta.
Diante das câmeras, da internet e, portanto, de todo o país, dirigentes de alguns de nossos principais clubes mancharam sua história e a da modalidade. De maneira bem mais vergonhosa do que rebaixamentos vividos dentro de campo.
O Fluminense disse que não se comparava o drama de uma família endividada com o drama do desemprego da cadeia do futebol. O tamanho dessa cadeia imaginária o presidente Mattheus Montenegro não citou, obviamente. O Flamengo fez ameaça semelhante, citando seus 1.200 funcionários e um suposto prejuízo de R$ 430 milhões (o clube teve faturamento bruto acima de R$ 2 bilhões, em 2025, e gastou R$ 315 milhões só na aquisição de Lucas Paquetá, em 2026).
O Cruzeiro citou um possível desequilíbrio no futebol sul-americano e ressaltou que o Vasco precisou enfrentar o Boca Juniors no Maracanã sem o seu patrocinador master, enquanto os argentinos traziam uma marca de bet na camisa. O Botafogo, em recuperação judicial, ameaçou a base e o futebol feminino, que "vão ser os primeiros a sofrer com esta perda". Considerando os salários do time masculino, por que a base e o feminino vão sofrer primeiro? Deixo para vocês essa resposta.
Mas talvez o momento mais emblemático e tragicômico da tarde tenha ficado por conta do representante do Vitória, o advogado paulista André Sica, bastante conhecido no meio. Claramente lendo as informações relativas ao Leão, como sua data de fundação e o tamanho da torcida, ele citou que as bets representavam 17% do faturamento do clube e suplicou: "O Vitória tem risco imediato de descenso. A nossa briga é pelo amanhã do Vitória, e o amanhã do Vitória não está garantido".
Poxa, o que pode ser pior do que 17% do faturamento e o risco da Série B, não é mesmo? Vamos arriscar o amanhã do Vitória em nome do amanhã de milhões de famílias brasileiras? A audácia! (Detalhe: a bio do clube no Instagram ostenta com orgulho "Campeão Brasileiro Série B 2023.)
Ouso dizer que um episódio do excelente Falha de Cobertura não criaria personagens e discursos tão bizarros quanto os que testemunhamos ontem na mais alta corte do país. Diante de uma sociedade que não aguenta mais perder dinheiro, saúde e vidas para uma indústria que só gera miséria, eles foram lá e dobraram a aposta. Sem um pingo identificável de vergonha.
Um rebaixamento digno das figuras que representam os clubes e indigno das torcidas que verdadeiramente os sustentam.