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Diego Maradona, o menino de Villa Fiorito que se tornou um dos maiores mitos do futebol

Nascido em 30 de outubro de 1960, Don Diego saiu de uma família trabalhadora para se tornar ídolo na Argentina e em Nápoles

O jogador Diego Maradona
O jogador Diego Maradona - Getty Imagens

Em 30 de outubro de 1960, nascia Diego Armando Maradona. Segundo a Associação do Futebol Argentino (AFA), ele veio ao mundo no Hospital Evita, em Lanús Oeste, na província de Buenos Aires. Sua infância, porém, ficou associada a Villa Fiorito, localidade popular do município de Lomas de Zamora, onde seus pais, Diego Maradona, conhecido como Don Diego, e Dalma Salvadora Franco, chamada de Doña Tota, criaram os filhos.

A casa da família, na rua Azamor, e os campos de terra do bairro fazem parte da memória de sua formação. Foi nesse ambiente que Maradona começou a jogar futebol ainda criança. O contraste entre a origem humilde e a dimensão internacional que alcançaria se tornou um dos elementos centrais da narrativa pública sobre sua vida.

O menino que chegou ao futebol profissional aos 15 anos

Maradona começou a se destacar nas categorias de base do Argentinos Juniors. Em 1969, ainda criança, passou a integrar o ambiente de formação do clube e ganhou notoriedade entre os jovens jogadores. Sua habilidade com a bola chamou atenção pela combinação de controle, drible e criatividade.

Em 20 de outubro de 1976, estreou na equipe profissional do Argentinos Juniors, aos 15 anos, 11 meses e 20 dias. O adversário era o Talleres de Córdoba, que venceu a partida por 1 a 0. O técnico Juan Carlos Montes colocou o adolescente em campo no início do segundo tempo, no lugar de Rubén Giacobetti. Em uma de suas primeiras intervenções, Maradona aplicou um drible conhecido como caneta, passando a bola entre as pernas de um adversário.

O resultado não foi favorável ao Argentinos Juniors, mas a estreia marcou o início de uma carreira extraordinária. Nos anos seguintes, Maradona se consolidou como um dos principais jogadores do futebol argentino e se tornou presença frequente nas notícias esportivas do país.

Em 1977, estreou pela seleção principal da Argentina. Apesar da experiência internacional já acumulada, ficou fora da convocação para a Copa do Mundo de 1978, disputada em território argentino. O treinador César Luis Menotti o retirou da lista final pouco antes do início do torneio. Maradona tinha apenas 17 anos.

Maradona durante partida pela Argentina / Crédito: Getty images

A ausência foi marcante, sobretudo porque a Argentina conquistou naquela edição seu primeiro título mundial. Mas o jovem jogador teria outra oportunidade de brilhar com a camisa nacional. Em 1979, liderou a seleção argentina na conquista do Mundial Juvenil, realizado no Japão. Marcou seis gols no torneio e recebeu o prêmio de melhor jogador da competição, segundo a FIFA.

Em 1981, transferiu-se para o Boca Juniors. A passagem pelo clube foi curta, mas importante: Maradona conquistou o Campeonato Metropolitano daquele ano antes de seguir para o futebol europeu.

Barcelona e a transformação de Nápoles

Em 1982, Maradona chegou ao Barcelona, da Espanha, em uma transferência que confirmou sua posição entre as grandes estrelas do futebol mundial. A passagem pelo clube catalão, contudo, foi prejudicada por problemas de saúde, lesões e dificuldades em campo. Em 1984, transferiu-se para o Napoli, da Itália.

A chegada do argentino transformou a história esportiva do clube. O Napoli ainda não havia conquistado o Campeonato Italiano, e sua torcida acompanhava uma equipe que buscava competir em condições mais favoráveis com os clubes tradicionalmente poderosos do norte do país.

Com Maradona como principal referência, o Napoli venceu o Campeonato Italiano nas temporadas de 1986–87 e 1989–90. Também conquistou a Copa da Itália de 1986–87 e a Copa da UEFA de 1988–89, competição que corresponde à atual Liga Europa. Em 1990, venceu a Supercopa da Itália.

Ruud Gullit e Maradona em partida entre o Milan e o Napoli / Crédito: Getty Images

O sucesso esportivo contribuiu para fortalecer a ligação entre o jogador e a cidade. Nápoles ocupava uma posição historicamente desigual dentro da sociedade italiana, marcada por preconceitos e estereótipos dirigidos ao sul do país. Nesse contexto, as conquistas do Napoli adquiriram um significado que ultrapassava os resultados esportivos.

Maradona passou a representar, para muitos torcedores, o orgulho de uma cidade que desejava ser reconhecida por suas próprias conquistas. Essa identificação ajudou a transformar o camisa 10 em um símbolo cultural de Nápoles, cuja memória permanece presente mesmo décadas depois de sua saída.

México, 1986: a Copa do Mundo que imortalizou Maradona

O momento mais célebre da carreira de Maradona ocorreu na Copa do Mundo de 1986, disputada no México. Capitão da seleção argentina, ele foi a principal figura de uma equipe que conquistou o título mundial ao derrotar a Alemanha Ocidental por 3 a 2 na final.

Nas quartas de final, em 22 de junho, a Argentina enfrentou a Inglaterra no Estádio Azteca, na Cidade do México. O encontro aconteceu quatro anos depois da Guerra das Malvinas, conflito entre os dois países que terminou com a derrota argentina e deixou marcas profundas na sociedade do país sul-americano. O contexto político contribuiu para a carga simbólica da partida, embora o significado esportivo do confronto não se limite a esse episódio.

A Argentina venceu por 2 a 1, com dois gols de Maradona, marcados no início do segundo tempo. O primeiro ficou conhecido como “Mão de Deus”. Em uma disputa aérea com o goleiro inglês Peter Shilton, Maradona desviou a bola com a mão esquerda. O árbitro validou o gol, apesar dos protestos ingleses. A infração não foi assinalada durante a partida.

Maradona segurando a taça da Copa do Mundo / Crédito: Getty Images

Quatro minutos depois, o argentino marcou um gol de natureza completamente diferente. Recebeu a bola ainda no campo de defesa, avançou em direção à área adversária e driblou vários jogadores ingleses antes de superar Shilton e finalizar. A jogada ficou conhecida como “Gol do Século” e é considerada uma das mais extraordinárias da história das Copas.

A FIFA registra os dois lances como momentos emblemáticos daquele torneio. A combinação entre o gol irregular e a jogada individual de rara qualidade contribuiu para consolidar a imagem de Maradona como um jogador capaz de provocar admiração, polêmica e fascínio.

Depois de eliminar a Inglaterra, a Argentina venceu a Bélgica por 2 a 0 na semifinal e enfrentou a Alemanha Ocidental na decisão. Maradona não marcou na final, mas participou da construção ofensiva da equipe e deu o passe que resultou no gol decisivo de Jorge Burruchaga. A vitória por 3 a 2 garantiu o segundo título mundial argentino, depois da conquista de 1978.

Maradona voltou a disputar uma final de Copa do Mundo em 1990, na Itália. Desta vez, a Argentina perdeu por 1 a 0 para a Alemanha Ocidental, com gol de pênalti de Andreas Brehme nos minutos finais. Em 1994, participou da Copa dos Estados Unidos, mas deixou a competição após um exame antidoping detectar efedrina e substâncias relacionadas. A FIFA impôs uma suspensão de 15 meses.

As controvérsias e o declínio esportivo

Os problemas de Maradona fora de campo se tornaram parte inseparável de sua biografia. Em 1991, quando defendia o Napoli, foi suspenso por 15 meses após um exame detectar cocaína. O episódio marcou uma fase de dificuldades pessoais e contribuiu para o afastamento do jogador do futebol italiano.

Em 1992, transferiu-se para o Sevilla, da Espanha. Depois, atuou pelo Newell’s Old Boys, na Argentina, antes de retornar ao Boca Juniors. Encerrou a carreira como jogador profissional em 1997.

A suspensão de 1994, durante a Copa do Mundo, foi um novo golpe em sua trajetória. Maradona negou ter ingerido deliberadamente a substância proibida, mas a punição o retirou do torneio. A Argentina ainda avançou à fase eliminatória, mas foi eliminada nas oitavas de final pela Romênia.

Ao longo dos anos, o ex-jogador também enfrentou problemas de saúde e dependência química, além de conflitos com dirigentes, jornalistas e autoridades. Essas questões não apagam sua importância esportiva, mas impedem que sua biografia seja reduzida à imagem de um herói sem contradições.

Em 2008, Maradona assumiu o comando da seleção argentina como treinador. Dirigiu a equipe na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, quando a Argentina foi eliminada nas quartas de final após perder por 4 a 0 para a Alemanha. A Associação do Futebol Argentino decidiu não renovar seu contrato naquele ano.

Futebol, política e identidade popular

A influência de Maradona ultrapassou o campo esportivo. Ele se tornou uma figura pública de posições políticas explícitas, com críticas aos Estados Unidos e apoio a lideranças latino-americanas de esquerda, entre elas Fidel Castro, Hugo Chávez e Evo Morales. Sua aproximação com essas figuras foi registrada pela imprensa internacional e integrou sua identidade pública.

Maradona também simbolizou uma forma de identificação popular com o futebol. Para muitos argentinos, sua origem humilde e a conquista de 1986 representaram a possibilidade de ascensão individual e de reconhecimento internacional do país. Em Nápoles, a ligação com a torcida expressou uma dimensão regional e social que não pode ser explicada apenas pelos títulos conquistados.

Maradona e sua tatuagem do Che Guevara / Crédito: Divulgação

Essa identificação não foi universal nem eliminou as críticas à sua conduta. Maradona foi admirado por sua habilidade e por sua capacidade de protagonizar grandes momentos esportivos, mas também foi alvo de críticas pelas controvérsias que marcaram sua vida pessoal e profissional. As duas dimensões fazem parte de seu legado.

A morte e a permanência do mito

Diego Maradona morreu em 25 de novembro de 2020, aos 60 anos, em uma residência na região de Buenos Aires, semanas depois de passar por uma cirurgia para tratar um hematoma subdural. A morte foi atribuída inicialmente a uma parada cardiorrespiratória. Posteriormente, uma junta médica que examinou o caso apontou falhas graves na assistência prestada durante seus últimos dias, o que levou a investigações judiciais sobre as circunstâncias de sua morte.

A notícia provocou comoção na Argentina e homenagens em diferentes partes do mundo. Em Buenos Aires, milhares de pessoas foram às ruas para se despedir do jogador. Em Nápoles, torcedores se reuniram em locais associados à sua trajetória, reafirmando uma ligação que havia sobrevivido ao fim de sua carreira.

Maradona deixou uma marca duradoura na história do futebol. Seu desempenho na Copa de 1986, a transformação esportiva do Napoli e sua capacidade de mobilizar multidões o colocam entre os jogadores mais influentes de todos os tempos. Sua história, porém, também é a de um homem submetido à pressão da fama, que enfrentou problemas pessoais graves e viveu sob intensa exposição pública.

Recordar seu nascimento em 30 de outubro não exige ignorar suas contradições nem transformar sua vida em uma narrativa de perfeição. Significa compreender como um garoto criado em Villa Fiorito se tornou uma figura mundial, capaz de unir futebol, identidade popular e disputas simbólicas em torno de sua imagem.

Maradona foi campeão do mundo, ídolo de clubes e protagonista de episódios controversos. A permanência de seu nome na memória coletiva decorre justamente da dimensão extraordinária, e profundamente humana, dessa trajetória.

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