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"Nunca foi sorte": Técnico do Bahia se emociona com classificação

As Mulheres de Aço eliminaram o São Paulo e chegaram à semifinal da Copa do Brasil

Bahia e São Paulo pela Copa do Brasil - Foto: Letícia Martins/ EC Bahia

O time feminino do Bahia em 2026 é, em essência, histórico - e conseguiu mais um feito para a conta. As Mulheres de Aço venceram o São Paulo por 1 a 0 e se classificaram para a semifinal da Copa do Brasil Feminina, com um significado que ultrapassou o resultado dentro de campo para o técnico Felipe Freitas.

Após o triunfo na noite de quarta-feira, 21, no estádio Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas, o treinador das Mulheres de Aço se emocionou durante a entrevista coletiva ao falar sobre sua trajetória pessoal, o preconceito enfrentado no futebol e a importância de acreditar em objetivos considerados improváveis.

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Com gol de Cássia, aos seis minutos do segundo tempo, o Bahia confirmou a vantagem construída na partida de ida, vencida por 2 a 1, em Aracaju, e garantiu a classificação com um placar agregado de 3 a 1.

O resultado colocou o Tricolor entre os quatro melhores clubes de uma competição nacional pela terceira vez consecutiva, considerando a Copa do Brasil de 2025, o Campeonato Brasileiro de 2026 e a atual edição do torneio eliminatório.

Durante a coletiva, Felipe relacionou a campanha ao trabalho desenvolvido desde sua chegada ao clube, em agosto de 2024, e destacou a representatividade dos resultados para meninas e mulheres do Nordeste.

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Treinador se emociona ao recordar infância e adoção

O Bahia, então, provou ser capaz de superar expectativas e alcançar resultados que pareciam distantes, e o treinador desse time sabe bem o que é isso. Negro e filho adotivo, ele contou que encontrou na família condições para estudar, receber apoio e perseguir seus objetivos, mesmo diante das dificuldades.

"É muito difícil ter um treinador negro à frente de clubes. Antes era muito mais, hoje em dia está cada vez um pouco mais acessível. Eu vim de uma condição de vida em que nasci e fui levado à adoção. Então, minha vida já seria muito difícil, muito impossível", relatou.

O técnico agradeceu aos pais adotivos e ressaltou a importância do ambiente familiar para sua formação. "Graças aos meus pais que me adotaram, tive condições de estudo, de amor, de carinho, de afeto. Tive condições de conviver com dois irmãos sensacionais e de acreditar nos meus sonhos, quando muitos duvidavam", contou.

Bahia e São Paulo pela Copa do Brasil - Foto: Letícia Martins/ EC Bahia

Emocionado, Felipe precisou interromper brevemente a resposta antes de deixar uma mensagem de incentivo.

"Acreditem nos sonhos de vocês. Não deixem ninguém tirar o brilho do olhar de vocês naquilo que querem fazer. É o que tento trazer no meu dia a dia de trabalho, para todos aqueles que me cercam e para os meus filhos", completou.

Bahia tenta romper barreiras do futebol nordestino

Felipe também destacou que as classificações recentes ajudam a questionar a concentração de investimentos e oportunidades em determinadas regiões do futebol brasileiro.

Para o treinador, os resultados do Bahia demonstram que equipes nordestinas podem disputar posições importantes no cenário nacional, mesmo enfrentando diferenças estruturais e financeiras.

"Romper paradigmas no nosso país é muito difícil. É um país muito centralizado na parte financeira, com muitas diversidades socioeconômicas e demográficas. Nossa função, através do esporte, é tentar trazer perspectivas diferentes", afirmou.

Bahia e São Paulo pela Copa do Brasil - Foto: Letícia Martins/ EC Bahia

O comandante das Mulheres de Aço ressaltou que a sequência de semifinais pode servir de referência para crianças que desejam construir uma trajetória no esporte.

"É fazer com que, principalmente as mulheres, mas de maneira geral o povo nordestino, acreditem que conseguem mais. Que se sintam representados pela sua luta e pela sua maneira de tentar conquistar a vida", disse.

Como exemplo, Felipe contou que conversou com uma menina chamada Aurora durante a passagem da delegação por Campinas. Segundo ele, a criança relatou com entusiasmo um gol que havia marcado depois de aplicar uma caneta em uma adversária.

"É muito legal ver meninas sonhando, jogando futebol com tão pouca idade. Acho que esse é o nosso papel através do futebol", comentou.

Três semifinais nacionais consecutivas

A classificação sobre o São Paulo está longe de ser a única alegria do Bahia no ano, chegando para confirmar uma sequência importante do Bahia no futebol feminino.

Em 2025, as Mulheres de Aço chegaram à semifinal da Copa do Brasil, mas foram eliminadas pela Ferroviária. Neste ano, alcançaram pela primeira vez a mesma fase do Campeonato Brasileiro, encerrando a campanha diante do Corinthians.

Agora, o Tricolor volta a disputar uma semifinal nacional e mantém a possibilidade de conquistar um título inédito. Felipe afirmou que a campanha não é resultado apenas dos dois confrontos contra o São Paulo, mas de um planejamento iniciado há mais de dois anos.

"A conquista da vaga começou, para mim, em agosto de 2024, com um planejamento de médio prazo. Eu chegava para as atletas e falava que seríamos semifinalistas, que seríamos finalistas da Ladies Cup. E conseguimos quando muitos não acreditavam", lembrou.

Bahia e São Paulo pela Copa do Brasil - Foto: Letícia Martins/ EC Bahia

Segundo o treinador, o objetivo sempre foi construir uma equipe competitiva independentemente da presença de jogadoras amplamente reconhecidas no cenário nacional.

"Muitas pessoas olham para o elenco e buscam nomes. Nós temos nomes de trabalhadoras que talvez não tenham sido consagradas nacionalmente, mas são consagradas por todos os esforços. Fomos colocando tijolo por tijolo", afirmou.

Felipe revela estratégia para neutralizar São Paulo

Além das questões emocionais, o técnico detalhou o planejamento que permitiu ao Bahia superar o São Paulo duas vezes nas quartas de final, reconhecendo que a equipe apresentou problemas no primeiro encontro, especialmente no retorno do intervalo, quando sofreu um gol logo no início do segundo tempo.

Para o jogo de volta, a comissão técnica trabalhou o posicionamento defensivo e a atenção às bolas lançadas nas costas da última linha.

"Cometemos muitos erros no último jogo. Entre eles, retornamos para o segundo tempo com um grau de concentração muito baixo e tomamos um gol muito precoce. Isso já tinha acontecido em outros jogos", explicou.

A estratégia também envolveu baixar o bloco defensivo em determinados momentos, obrigando o São Paulo a recorrer aos cruzamentos.

Bahia e São Paulo pela Copa do Brasil - Foto: Letícia Martins/ EC Bahia

"Vimos em alguns jogos que, quando o São Paulo enfrenta equipes com o bloco mais baixo, existe uma sequência de bolas cruzadas na área, mas com menor eficiência de gols. Foi algo muito pensado", disse.

Ofensivamente, o Bahia procurou explorar os espaços no lado oposto às jogadas. O treinador destacou que esse movimento já havia produzido oportunidades na partida de ida e foi novamente importante no confronto decisivo.

"O gol foi algo que trabalhamos bastante, das ações de corredor oposto, onde havia uma vulnerabilidade. Nosso trabalho precisa ser constantemente analisado e corrigido para evoluirmos cada vez mais", explicou.

Sistema defensivo recebe elogios

O desempenho defensivo foi outro ponto valorizado por Felipe Freitas. Depois de sofrer um gol na partida de ida, o Bahia conseguiu neutralizar o ataque são-paulino em Campinas e terminou o confronto sem ser vazado.

O treinador mencionou a atuação de Isa Fernandes, que havia marcado um dos gols no primeiro jogo, além das contribuições de Tchula, Mila Santos e Ju Oliveira. Também fez questão de destacar as atletas que entraram durante a partida e a importância das reservas na construção dos resultados.

"A Isa fez o gol no outro jogo e foi muito sólida aqui. A Tchula, a Mila, a Oliveira também foram muito bem. A Cássia fez um lindo gol, com inversão da Wendy. Mas bato sempre na mesma tecla: nossa maior força é o grupo", afirmou.

Bahia e São Paulo pela Copa do Brasil - Foto: Letícia Martins/ EC Bahia

Felipe citou ainda Ana Júlia, Martina e Ana Clara para reforçar a ideia de que todas as jogadoras precisam se sentir importantes, mesmo quando não começam entre as titulares.

"Às vezes, ficar fora nos coloca para baixo. Mas é preciso acreditar que, mesmo nesse momento, você tem que fazer o seu melhor. Assim, vai fazer com que o grupo seja melhor e estará preparada quando a oportunidade aparecer", completou.

Treinador rejeita ideia de classificações por sorte

Felipe Freitas também comentou as avaliações externas sobre o desempenho do Bahia diante de equipes consideradas favoritas. O treinador lembrou que, depois da classificação sobre o Palmeiras, nos pênaltis, pelas quartas de final do Campeonato Brasileiro, houve quem atribuísse o resultado à sorte.

Para ele, o triunfo sobre o São Paulo reforça que as campanhas são consequência de preparação e evolução técnica.

"Passamos do Palmeiras e falaram que foi na sorte, por causa dos pênaltis. Depois veio o São Paulo e vencemos o primeiro jogo. Novamente, falaram que foi sorte. Agora vencemos por 1 a 0, sem sofrer gols. É muito trabalho", declarou.

O técnico também elogiou o adversário, lembrando a qualidade das jogadoras e o trabalho desenvolvido por Thiago Viana.

"O São Paulo é uma equipe muito boa, com muita solidez e constância competitiva. O professor Viana faz um trabalho sensacional. Conseguir fazer três gols, somando os dois jogos, contra uma equipe dessa magnitude é muito bom", opinou.

Bahia mantém sonho do título

Classificado, o Bahia agora aguarda a definição do confronto entre Flamengo e Fluminense para conhecer seu adversário na semifinal da Copa do Brasil Feminina.

Felipe Freitas evitou colocar o Tricolor como favorito e ressaltou a evolução das equipes que seguem na disputa pelo título: "Está cada vez mais competitivo. Sabemos que teremos que trabalhar muito para conquistar esse título, mas estamos dispostos. Se formos merecedores, certamente conquistaremos".

Antes da semifinal, as Mulheres de Aço ainda terão compromissos pelo Campeonato Baiano. Segundo o treinador, a análise do desempenho já começou imediatamente após a classificação.

"Terminou o jogo e eu já estava analisando nossos números, pensando no Campeonato Baiano, no jogo de volta e depois na semifinal. Quem sonha grande tem muitos desafios. Queremos continuar sonhando e conquistar coisas maiores", disse.

"Estou muito orgulhoso, muito realizado. Gostaria que todo brasileiro tivesse a oportunidade de sentir o que estou sentindo agora: a sensação de conquista, de saber que todos os esforços não foram em vão", finalizou.

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