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Em três dias, dois times argentinos vieram ao Brasil e arrancaram do Maracanã lotado classificações às finais da Sul-Americana e da Libertadores.
Chegaram à cidade do Cristo Redentor na condição de desafiantes. O Boca Juniors havia perdido em casa para o Vasco da Gama. No Rio, quase 70 mil vascaínos viram seu time ser eliminado dentro dos 90 minutos.
O gol da classificação do Boca foi de Paredes, que voltou de uma lesão muscular grau dois em 11 dias, jogou os últimos 30 minutos, estava desaconselhado a bater forte na bola para evitar nova lesão muscular e desconsiderou o conselho.
Bateu de longe, Léo Jardim levou gol de Casados x Solteiros, Boca 3x1 e finalista. Entre o jogo da Bombonera e o do Maracanã, o capitão do Vasco da Gama replicara em sua rede social uma foto onde aparecia rasgando ao meio o distintivo do Boca Juniors. A cena, ridícula e inoportuna, deu aos argentinos o que eles já têm de sobra: têmpera. Thiago Mendes não bancou a bravata, o Vasco da Gama está fora da decisão da Sul-Americana. Amarelou no sentido mais estrito da expressão. Tremeu. A missão foi maior do que os jogadores envolvidos em cumpri-la.
Entre a terça e a quinta-feira, todos no Flamengo tiveram tempo suficiente para entender o quanto os times argentinos, na condição de desafiantes, podem ser perigosos. O Estudiantes de la Plata é 10° no campeonato nacional, tem qualidade de média para baixo, o goleiro foi o pior da Copa, Muslera, 40 anos.
Mas era também o time que se classificou fora de casa nas duas fases anteriores. Porém, toda informação disponível sobre o quanto a equipe comandada por Cacique Medina era resiliente não bastou para o Flamengo entrar mais determinado, focado e animado no jogo.
Amorfo, enfadonho e desconcentrado, nunca esteve perto de merecer vencer nem que fosse de 1 a 0. Quando Baltasar Rodríguez foi expulso aos cinco minutos do segundo tempo, os 70 mil flamenguistas começaram a fazer a conta de qual seria o placar da vitória. Nada.
O Flamengo criou, depois da expulsão, uma chance de gol. O último ataque do tempo regulamentar foi do Estudiantes. Quando ia começar a cobrança dos pênaltis, bastava ouvir o silêncio constrangido da arquibancada e olhar a cara e a expressão corporal de cada jogador do Flamengo para entender que o Estudiantes sairia classificado do Maracanã.
De novo, a têmpera de irresignação e valentia do desafiado ferido pela soberba do favorito gritou e o classificado não foi o que oito em cada 10 fãs de futebol apontariam. Foi o Estudiantes. Com três defesas do seu goleiro de 40 anos. O pior goleiro da Copa.
Porque futebol não é algoritmo, querido leitor, querida leitora. Futebol é técnica, tática, condição física, talento individual, trabalho coletivo, mas acima de tudo é um jogo mental. À exceção de 2019, quando o Flamengo virou sobre o River Plate e foi campeão da Libertadores, sobram exemplos de times argentinos que superam brasileiros pela fortaleza da mente, pela solidez do espírito, pela irresignação da alma.
Nestes casos, fica a impressão de que nossos times são formados por jogadores meio barro, meio tijolo. Que amolecem fácil. Que derretem amanteigados. Que não resistem a três sapateadas dos hermanos. Que fenecem. Que sucumbem. E perdem.
Como não temos mais os gênios que superavam a atitude do desafiante a dribles e encantamento para a vitória e o título, estamos obrigados a entender por que eles nos superam. E não precisa ser argentino, não. A Noruega foi firme e gelada como seu inverno para eliminar o manso Brasil nas oitavas da Copa do Mundo.
No dia seguinte, pela mesma fase, a Argentina saiu perdendo de 2 a 0 para o Egito e virou para 3 a 2. Na semifinal, viraria também contra a Inglaterra nos minutos finais da partida. Se os noruegueses foram gelados para eliminar os brasileiros, os argentinos foram tórridos para eliminar os iegípcios e os ingleses. O certo é que o Brasil, na seleção ou nos seus clubes gigantes, têm sérios problemas no quesito anímico. E se não superá-los, episódios como os dois constrangedores Maracanazos da semana vão continuar se repetindo.