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Em 2023, João Chianca liderou o ranking mundial e chegou à decisão da temporada na disputa pelo título. Mas em dezembro daquele ano sofreu um grave acidente durante um treino em Pipeline, no Havaí, e precisou até reaprender a andar. Em julho de 2024, estava de volta à água para disputar os Jogos Olímpicos de Paris. A recuperação física avançou de maneira rápida, mas seguir em frente sem se prender ao que poderia ter acontecido caso o acidente não tivesse mudado sua trajetória foi um processo mais longo.
Em entrevista ao UOL, o brasileiro falou sobre os altos e baixos desde o retorno ao Circuito Mundial e sobre como conseguiu se desprender desse passado para voltar a olhar para o futuro.
É difícil. É uma ponta de corda que eu tentei segurar por muito tempo, mas consegui soltar. Eu nunca ia conseguir andar para a frente se não soltasse ela. É difícil imaginar o que ia ser, ou como seria João Chumbinho, ao UOL
Em 2024, Chianca concentrou seus esforços na recuperação e na preparação para os Jogos Olímpicos. Naquele momento, não se prendia ao fato de ter perdido a temporada do Circuito Mundial. Ele conquistou a vaga olímpica justamente pelo bom desempenho no ano anterior.
Acredito que 2024 foi difícil, mas não me apeguei àquilo, ao fato de estar 'perdendo' o CT. A meta era melhorar para as Olimpíadas e estar me sentindo bem. Não senti falta do que poderia ter sido João Chumbinho
A sensação mudou no início de 2025. De volta ao circuito, o surfista passou a perceber que alguns detalhes que antes pareciam sob controle já não saíam como esperava. Nos momentos de frustração, pensava na trajetória que poderia ter seguido sem o acidente.
Foi uma temporada difícil, em que eu via vários detalhes que fugiam da minha mão, mas que normalmente não fugiriam se eu estivesse em forma, se o acidente não tivesse acontecido. Quase soa como uma desculpa, mas eu sentia falta do que não vivi, de uma coisa que nem estava no meu plano João Chumbinho
Com a ajuda de sua psicóloga, Chumbinho começou a questionar essa relação com o acidente. A temporada teve bons momentos, mas também resultados que o deixavam frustrado, sobretudo quando sentia que poderia ter ido mais longe. Foi nesse processo que decidiu não deixar o episódio definir sua carreira.
Eu fui fazendo essas perguntas para mim mesmo, me respondendo, e consegui soltar a corda em 2025. Teve momentos em que eu terminava um evento com o sentimento de que estava tão fácil, mas acabava de uma maneira ruim. Foi nesses momentos que senti falta e tentei colocar uma certa culpa no acidente João Chumbinho
Em 2026, os desafios continuam. Chianca reconhece que se frustrou com as notas dos juízes em algumas etapas, mas também admite que não conseguiu reproduzir nas baterias o nível que apresentava nos treinos. Tirando o terceiro lugar em Saquarema, João não passou da nona colocação nas outras etapas.
Foi difícil porque era uma faca de dois gumes. Eu reclamei do julgamento em alguns eventos, mas sabia que não estava surfando nem perto do que estava surfando nos free surfs. Tenho a minha parcela de culpa, talvez a maior. Como atleta profissional, acho que a gente é totalmente responsável pelos nossos erros e pelas consequências que a gente tem João Chumbinho
Agora, Chianca quer voltar a se colocar entre os melhores do mundo e não tem receio de falar abertamente sobre a ambição de disputar o título. Para ele, assumir esse desejo também exige coragem.
Você tem um desejo, trabalha todo dia pensando nisso. Só você merece pensar nisso? Deixa os outros saberem!
O brasileiro já esteve na briga pelo título, mas sabe que precisará construir novamente o caminho até lá. Quer aproveitar os anos que ainda tem no Circuito Mundial para perseguir o objetivo de ser campeão mundial.
Se eu posso escolher viver os meus anos de Circuito Mundial de uma maneira, é externando todo esse desejo, todo esse carinho, gratidão, todo esse foco, a ambição que eu tenho de ser campeão mundial um dia
O Circuito Mundial segue para uma etapa inédita em Cloud 9, nas Filipinas, entre 31 de outubro e 10 de novembro. A onda, conhecida pelos tubos para a direita, fica na ilha de Siargao e estreia no calendário da elite do surfe após o cancelamento de Abu Dhabi.