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O futebol dos anos 1980 era completamente diferente do que é hoje, principalmente em relação ao calendário.
Naquela época não existia a Copa do Brasil, nem a Copa Sul-Americana, e só disputavam a Libertadores o campeão e o vice do Campeonato Brasileiro; então, sobrava tempo durante o ano e muitas equipes, em alguns momentos, faziam uma mini excursão. O Corinthians resolveu fazer uma dessas para os Estados Unidos e Caribe em 1982.
Era a primeira vez que eu saía do país e eu sonhava em conhecer a Disneylândia em Anaheim, na Califórnia.
Nossos compromissos começavam com um jogo no Coliseum de Los Angeles contra o Atlante do México, depois em Trinidad e Tobago contra a seleção local e, por último, em Curaçao, também contra a seleção deles. Entre a ida e a volta da viagem, foram cerca de 12 dias.
Chegamos a Los Angeles e já foi incrível porque ficamos no hotel de frente com o Forum, que era o ginásio onde jogava o meu time na NBA, o Los Angeles Lakers, dos meus ídolos Magic Johnson e Kareem Abdul-Jabbar.
Dois dias depois seria o primeiro jogo à noite contra o Atlante, do México, que tinha no seu time o polonês Lato (artilheiro da Copa de 1974, na Alemanha) e Cabinho, ótimo centroavante brasileiro que havia jogado nos bons tempos da Portuguesa de Desportos.
O sr. Mário Travaglini, treinador do Corinthians, deu o dia livre e a gente tinha que estar no hotel para ir ao estádio às 17h.
O grupo se dividiu e o zagueiro Gomes, o volante Paulinho, o meia Luis Fernando, Biro-Biro e eu partimos rumo à Disneylândia.
Eu era fascinado pela Disney porque assistia a todos os desenhos no cinema com minha mãe sempre que passavam, e me lembro bem de ter assistido com ela "Bambi", "Os Aristogatas", "Branca de Neve", "A Bela Adormecida", "Mogli", entre outros.
E na TV não perdia um programa do Clube do Mickey. Desde criança sonhava em conhecer o parque e estava realizando um sonho, e ainda junto com meus amigos de time.
Pegamos um dia ensolarado e nos divertimos o dia todo. Obviamente, perdemos o horário e fomos direto para o estádio.
Chegamos cheios de sacolas de compras 30 minutos antes do jogo e ainda faltavam alguns jogadores.
Logo em seguida chegaram Zé Maria, Sollito e Sollitinho de outro lugar.
Enfim, jogamos e vencemos por 3 a 2, com dois gols meus e um do Magrão. Do Atlante, Lato marcou os dois.
De Los Angeles partimos rumo a Trinidad e foi incrível, porque eu não tinha a mínima ideia de como era a ilha.
Naquela época não existiam celulares, redes sociais, TV a cabo, internet, canal do YouTube e, por isso, era difícil conhecer os lugares sem que passasse algum documentário na TV ou sem ler alguma matéria sobre o local.
Mas foi incrível porque era similar à Jamaica, já que, além do ritmo caribenho, lá também havia no reggae o seu som revolucionário.
Bom, vencemos por 8 a 2 e aconteceu uma coisa muito engraçada nesse jogo.
O saudoso goleiro Sollitinho era meu amigo de moleque, porque jogamos juntos no juvenil.
Era roqueiro como eu e sempre estávamos juntos. Como o jogo havia virado uns 5 a 0 para nós, o sr. Mário fez várias alterações no intervalo e uma delas foi sair Sollito e entrar Sollitinho.
O centroavante deles tinha um cabelo rastafari grande, igual ao do Bob Marley, e, quando voltamos para o campo, eu cheguei ao Sollitinho e falei:
"Sollitinho, se você tomar um gol de cabeça do Bob Marley, é o fim."
Ele era nervoso e me respondeu assim:
"Se ele fizer gol de cabeça, eu te mato."
Bom, o segundo tempo começou e fizemos mais uns três gols quando, de repente, eles fizeram uma jogada pela direita, o lateral cruzou, a nossa zaga deu uma bobeada e o "Bob Marley" voou de peixinho e marcou um dos gols deles.
Aí começou o show, porque eu gritei lá da frente:
"Pô, Sollitinho, não falei que se você tomasse um gol de cabeça dele era o fim?"
Ele tirou as luvas e veio andando na minha direção, me xingando e dizendo:
"Tá vendo? Você me secou, vou quebrar a sua cara!"
Nessa hora o time todo começou a dar risada porque eu continuei provocando:
"Você toma um gol de cabeça do 'Bob Marley' e a culpa é minha?"
Claro que tudo terminou na gozação e, depois do jogo, ficamos tomando cerveja na piscina com o Zenon tocando violão e cantando Roberto Carlos, enquanto eu e o Sollitinho gritávamos:
"Zenon, toca um Iron Maiden ou um AC/DC!"
Mas ele metia uns Beatles às vezes para aliviar.
Dali partimos para Curaçao, que ainda era uma ilha completamente desconhecida porque ainda não era rota de turismo.
Ficamos num resort à beira-mar, com uma piscina enorme e um bar incrível.
Já era o final da excursão e, depois de muitos passeios, várias noites sem o time dormir direito e muitas festas, empatamos em 0 a 0 com a seleção deles. No outro dia, iniciamos a volta para o Brasil.
Fizemos escala em Miami, chegando às 11h. O nosso voo só saía às 23h, e não poderíamos sair do aeroporto.
Eu e o Magrão fomos para um bar e lá ficamos sem sair até por volta das 19h, só tomando cerveja e comendo uns petiscos.
Chegamos numa segunda-feira e na quarta jogamos contra a Portuguesa no Morumbi e empatamos em 0 a 0, com o Magrão tendo um estiramento. No domingo, decidíamos o título do primeiro turno contra o São Paulo, que era o bicampeão paulista (1980/1981) e tinha um timaço.
Mas a história sobre esse jogo eu conto em outro momento.